Terror na Água (Dir: David R. Ellis)

10/11/2011

Sara (Sarah Paxton) é ataca por tubarão em filme pouco memorável; 3D se destaca

A tecnologia 3D veio para ficar? Ainda é cedo para dizer. Os filmes em três dimensões já experimentaram um curto apogeu nos anos 50, mas, em poucos anos, caíram no esquecimento. Foi só recentemente que uma nova fase surgiu, mais aprimorada tecnologicamente, proporcionando imagens em perspectiva que não cansam tanto a vista dos espectadores (um dos principais fatores que causaram a derrocada do 3D na década de 50). Mas, se o aspecto técnico melhorou, não se pode dizer o mesmo do conteúdo. Para cada obra-prima como Avatar, de James Cameron, temos um sem fim de produções caça-níqueis, cujo único objetivo é capitalizar em cima do recurso, já que os ingressos para filmes em três dimensões são mais caros que os normais. Obviamente, esse segundo tipo apresenta uma qualidade bastante duvidosa: sem o 3D, seriam um longa sem qualquer atrativo.

Terror na Água (uma tradução bastante genérica para o bom título original, Shark Night – Noite dos Tubarões, em português) se encaixa na segunda categoria. É um filme na linha do medíocre, servindo apenas como um passatempo para quem não tem mais nada para fazer. Não fosse o “fator 3D” e os efeitos visuais um pouco mais caprichados do que o usual, a produção poderia muito bem se passar por um filme para TV. Há quem consiga se divertir com a história, mas para aqueles que, como eu, ansiavam por um sucessor de Tubarão (lançado há mais de 35 anos), não dá pra negar que Terror na Água seja decepcionante. Na verdade, a fita mais tenta beber da fonte do clássico de Spielberg (como se pode comprovar já na cena de abertura) do que renová-lo. Talvez Tubarão ainda não precise de uma revitalização de tão bom que é, mas o fato é que, se colocarmos os dois filmes lado a lado, Terror na Água sai perdendo em todos os quesitos. Continue lendo »

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Projeto Hitchcock: Disque M Para Matar (1954)

15/06/2011
“Como vocês viram na tela; a melhor maneira de fazer isso é com uma
tesoura”  Alfred  Hitchcock, sobre Disque M Para Matar

Crédito: Desesperada Esperança

O Projeto Hitchcock já entrou na década de 50, um período em que a televisão se popularizou nos Estados Unidos. Como esse novo meio de comunicação transmitia filmes gratuitamente, as pessoas simplesmente pararam de ir ao cinema. Então, para não falirem, os estúdios passaram a produzir filmes bastante atrativos, com recursos que a pequena tela da TV não poderia oferecer. Um deles é a criação de filmes em escala épica, que exigia uma tela maior do que a que existia até então. Nascia o formato anamórfico (o widescreen), que foi popularizado principalmente pela tecnologia CinemaScope, dos estúdios Fox. Outro truque, que teve vida curta mas foi importatíssimo para o cinema, foi o 3D. Vale lembrar que a técnica de hoje é pouco diferente desta dos anos 50. Os filmes em três dimensões eram muito complicados de se projetar e os óculos da época davam dor de cabeça aos espectadores, o que acelerou o seu declínio. Foi já nessa última fase que Disque M Para Matar, de Hitchcock, foi lançado. Concebido em três dimensões, quase nenhum cinema optou por exibi-lo nesse formato. Por isso, hoje, são sortudos os que tiveram a oportunidade de vê-lo como o cineasta pretendia que ele fosse exibido. Continue lendo »


Santuário (Dir: Alister Grierson)

14/02/2011

 

Crédito: Sala de Cinema

Confesso que o que me fez assistir a Santuário, que está em cartaz nos cinemas, foi o nome do todo-poderoso James Cameron. Para quem leu a minha análise do último filme do cineasta, Avatar, sabe o quanto eu fiquei impressionado com essa superprodução, na minha opinião revolucionária. Com isso, quando vi o cartaz de Santuário, que afirmava ter sido criado por Cameron (mesmo ele não sendo o diretor), pensei: “Ele não colocaria a sua reputação em jogo”. E lá fui eu conferir o longa… E lá fui eu me decepcionar de novo com marketing enganoso…

Se eu tivesse pesquisado mais um pouco sobre a produção, teria descoberto que Cameron era apenas um dentre vários produtores, não devendo ter muita influência no resultado final. E se tinha algo que Santuário necessitava, era o toque de midas do diretor, responsável pelos dois filmes de maior bilheteria do mundo (o já citado Avatar e Titanic). Não me leve a mal, Santuário até consegue divertir, mas, graças a diversas falhas, esse entretenimento é limitado. Continue lendo »


Alice no País das Maravilhas (Dir: Tim Burton)

25/04/2010

Créditos: Holy Junk

Em entrevista, o diretor Tim Burton afirmou que tentaria não só fazer uma releitura do clássico da Disney Alice no País das Maravilhas, como de todas as adaptações da obra de Lewis Caroll para o cinema! Segundo o diretor, nenhuma delas o impressionou emocionalmente, pois todas contavam apenas a história de uma menina que ia conhecendo uma criatura bizarra após a outra, sem uma linha narrativa. Por isso, Burton decidiu por criar uma história que ligasse todos estes encontros de Alice. Por incrível que pareça, a trama criada para essa Alice é seu calcanhar de Aquiles. A nova roupagem dos personagens e a complexa direção de arte são, na verdade, o que fazem o filme valer a pena.

Esta é uma das adaptações mais livres da história. Para começar, Alice (Mia Wasikowska) não é mais criança. Com 19 anos, está prestes a ficar noiva de um homem que odeia. Ela também não se lembra que já visitou o País das Maravilhas, acreditando que todas as suas aventuras não passaram de um sonho. Quando vê um coelho branco (Michael Sheen) entrando numa toca, a moça o segue e vai parar mais numa vez naquele mundo fantástico. Lá, descobre que a tirana Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter) está aterrorizando o lugar e só ela pode vencê-la.

O problema com esta sinopse é que ela é convencional e previsível demais, características que até agora não faziam parte da filmografia de Tim Burton. Ele conseguia transformar o lugar-comum, o clichê em fantástico, absurdo, com um toque sarcástico, irônico, sombrio e ainda assim, emotivo. Seus melhores filmes fazem uso dessa “fórmula”: Ed Wood (uma biografia atípica, mas hilária e emocionante ao mesmo tempo), Edward Mãos de Tesoura (uma fábula dark) e Peixe Grande (um desfile de contos de fada excêntricos). Já em Alice, vemos a Disney estampada em cada minuto de projeção. A moça, quando chega ao País insegura e temerosa, descobre que precisa se tornar uma guerreira e matar o Jaguadarte, monstro controlado pela Rainha Vermelha. Para isso e para poder retomar sua vida no “mundo real”, terá que superar seus medos.

Ou seja, a narrativa, tão cara a Burton, tornou-se isso? Uma simples jornada de auto-descoberta que já vimos milhões de vezes antes, encapada por um convencional terceiro ato voltado para cenas de ação? Ver Alice lutar com o Jaguadarte foi estranhíssimo (e não de um modo bom, como nas outras obras de Burton), porque essa história não foi concebida desse modo. Alice, uma guerreira? Bastante forçado, talvez para atrair crianças e jovens. Mais forçado ainda é a paixão velada que Alice e o Chapeleiro Maluco (o astro Johnny Depp, que pela sua fama tem seu personagem aumentado de maneira excessiva) sentem um pelo outro. Burton talvez não tenha percebido que apenas a sucessão dos encontros de Alice já era o suficiente para a história funcionar. Por isso o filme da Disney é considerado um clássico, assim como Mogli – O Menino Lobo, que tem uma narrativa semelhante. É claro que Burton tem o talento necessário para criar uma história em cima de Alice e seus excêntricos amigos, mas esta definitavamente não é das melhores.

Li várias outras críticas dizendo que Alice no País das Maravilhas tinha muito pouco de Burton. Pelo menos em termos de história, eu tenho que concordar. Tudo no filme tem o “padrão Disney de contar histórias”. Não é à toa que o roteiro é assinado por Linda Woolverton, que já escreveu o roteiro de O Rei Leão e ajudou a criar as histórias para Mulan e A Bela e A Fera. Estes três filmes até que são razoáveis, com algumas ideias interessantes, mas Woolverton, ao que parece, está esgotada de boas sacadas. E Burton também não está em seu momento mais inspirado.

O que salva Alice da total mediocridade são justamente a construção dos habitantes do País. Cada um deles tem algo interessante a acrescentar, seja pelo visual criativo, seja por falas hilárias, desconexas e inteligentes. Não tem como não gargalhar com a Lebre, o Ratinho e o Chapeleiro, ficar impressionado pela forma arrendondada dos gêmeos Tweedledee e Tweedledum (ambos interpretados por Matt Lucas) e até mesmo, pela primeira vez, se compadecer pela Rainha Vermelha. Temos também um simpático Gato Sorridente (Stephen Fry) e uma afetada, mas doce Rainha Branca (Anne Hathaway). Aqui, sim, Burton e Woolverton acertaram a mão: criaram personagens complexos, dando-lhes autenticidade além de suas formas esquisitas. O cuidado com este aspecto mantém o interesse do espectador muito mais do que a jornada boba de Alice contra a Rainha e seu Jaguadarte.

A própria Alice, infelizmente, é uma das mais sem graça do longa. A culpa talvez nem seja tanto do roteiro (mas que poderia tê-la desenvolvido melhor), e sim da atriz, Mia Wasikowska, que não impõe personalidade nenhuma à protagonista, e por isso, não convence. O mesmo não pode ser dito da maioria dos coadjuvantes, que estão perfeitos em seus papeis. Bonham Carter rouba a cena como a Rainha; Alan Rickman, que só pôde fazer uso de sua voz, consegue passar com eficiência a rispidez e sabedoria da lagarta; e, claro, Johnny Depp, mais maluco do que nunca, é o destaque (mas reitero que sua participação poderia ser menor – as cenas que insinuam o romance dele com Alice deveriam ter ficado todas no chão da sala de edição).

O que também chama a atenção em Alice é a direção de arte – com o perdão da expressão, um banquete para os olhos. Cada cenário gerado por computador é excepcional, com tantas nuances e cuidado em sua criação que te faz ficar deslumbrado. Para se criar elementos fantásticos, passíveis de existirem apenas no País das Maravilhas, só tendo muita criatividade mesmo. E isso Burton tem de sobra. A ideia de filmar o filme do modo convencional e depois converter tudo em 3D, ao contrário do que possa parecer, foi acertada. Os efeitos clássicos (com objetos saindo da tela) e de profundidade estão presentes por todo o filme. Eles, além de divertir, contribuem, e muito, para o visual de Alice.

O filme consegue atingir seu objetivo, que é entreter crianças e adultos. Apenas lamento que, sendo esta uma criação do grande Tim Burton, Alice no País das Maravilhas poderia ter alcançado níveis mais complexos em matéria de conteúdo. Se a forma é bela, mas o conteúdo é vazio, a força da obra cinematográfica é cortada pela metade.

FICHA TÉCNICA

Título original: Alice in Wonderland
Ano de lançamento: 2010
Direção: Tim Burton
Produção: Joe Roth, Jennifer Todd, Suzanne Todd, Richard D. Zanuck
Roteiro: Linda Woolverton
Duração: 108 minutos
Elenco: Mia Wasikowska (Alice), Johnny Depp (Chapeleiro), Helena Bonham Carter (Rainha Vermelha), Anne Hathaway (Rainha Branca), Crispin Glover (Stayne).
 
Nota: 6.5

Como Treinar Seu Dragão (Dir: Dean DuBois e Chris Sanders)

11/04/2010

Créditos: Pipoca Combo

No final do século XX e no começo deste, o número de filmes de animação lançados cresceu absurdamente. Com a Disney entrando em decadência, outras empresas apareceram para brigar pelo seu lugar no mercado, como a Pixar (que acabou sendo comprada pela Disney) e a Dreamworks. Depois, os próprios estúdios já aumentavam consideravelmente seu departamento de animação. Tudo porque desenhos geram lucro. O problema é que, com isso, o que teve de desenhos de baixa qualidade não está no gibi. Com a recente popularização da técnica 3D (que é de grande serventia às animações), o rumo deste tipo de filme parece ir pelo mesmo caminho, com várias produções dispensáveis e apenas algumas que valem a pena ser assistidas.

Felizmente, Como Treinar Seu Dragão se encaixa nesta segunda categoria. O filme conta a história de Soluço (dublado na versão original por Jay Baruchel, de Trovão Tropical), um jovem viking sem aptidão física nenhuma. Isso faz com que ele se sinta alienado dentro de sua própria tribo e rejeitado pelo próprio pai (voz de Gerard Butler, de O Fantasma da Ópera), já que eles combatem dragões que invadem sua aldeia constantemente. Quando o garoto consegue capturar o mais perigoso dragão que sua tribo já conheceu, o inesperado (ou seria esperado?) acontece: os dois se tornam amigos. Agora Soluço terá que convencer todo o seu povo que matar dragões, algo que eles fazem há séculos, é uma prática que deve acabar.                                                     

Como se vê, o roteiro do filme é bem convencional, beirando o clichê. Mas o filme apresenta tantas outras qualidades que quase não se presta atenção aos lugares-comuns da história. Primeiramente, o filme é divertidíssimo. As piadas estão presentes por todo o longa, sem nunca atrapalhar os acontecimentos narrados. Em segundo lugar, as cenas de ação são extremamente bem estruturadas, dando um banho em muito filme do Van Damme, Stallone e companhia limitada (limitada em mais de um sentido). Ao contrário de outros filmes de ação recentes, os enquadramentos nos possibilitam acompanhar tudo o que acontece na tela, o que, junto com a longa duração dessas cenas, cria um bom clima de tensão. Em terceiro lugar, os diretores Dean DeBois e Chris Sanders (os mesmos de Lilo e Stitch (2002) – alguém mais percebeu a semelhança entre Stitch e o dragão Banguela?) conseguiram criar uma bela fábula de amizade no filme – as partes em que apenas Banguela e Soluço estão em cena são as melhores do longa. A união entre os dois se torna especialmente tocante no desfecho do desenho, que eu considero inovador e mesmo corajoso.    

Assim como os personagens arredondados (o que contribui para que simpatizássemos com eles) de Lilo e Stitch pareciam bem diferentes do que já havia sido feito no campo de animação até aquele momento, DeBois e Sanders também procuraram inovar em Como Treinar Seu Dragão. Apostando em formas mais rústicas (como os próprios vikings eram) e tortuosas, a dupla consegue mais uma vez dar um visual relativamente diferenciado a seu desenho. Os dragões também merecem destaque: tirando o Banguela /Stitch, todos os outros tipos (e são muitos) têm forma bem diferente dos dragões que já vimos. Há dragões de duas cabeças (mas que não é a Hidra), gordos, que tem sua escamas cobertas por fogo… os animadores estavam com a criatividade em alta!

Embora o 3D tenha um efeito paliativo, mostrando serviço apenas em algumas cenas que necessitavam de profundidade, o visual de Como Treinar Seu Dragão não é prejudicado. Quanto à direção de fotografia, ela é eficaz o filme inteiro: a luz está sempre onde precisa estar, seja para focar nos personagens, seja para apenas tornar a cena mais bonita (ela é essencial no passeio de Soluço e Astrid em cima de Banguela). Pra completar, a trilha sonora é contagiante, por ser bem animada na maior parte das vezes mas romântica e envolvente quando precisa.

Como Treinar Seu Dragão é diversão garantida para adultos e crianças, e isso é cada vez mais raro em filmes que não são feitos pela Pixar. Se você está cansado de ver animações abaixo da média, então é hora de assistir a uma hora e meia de entretenimento puro!

FICHA TÉCNICA

Título original: How To Train Your Dragon
Ano de lançamento: 2010
Direção: Dean DeBois e Chris Sanders
Produção: Bonnie Arnold
Roteiro: Dean DeBois e Chris Sanders
Duração: 98 minutos
Vozes (versão original): Jay Baruchel (Soluço), Gerard Butler (Estoico), America Ferrera (Astrid).
 
Nota: 7.0