Projeto Hitchcock: Festim Diabólico (1948)

24/05/2011
“Morro de medo de ovos, pior do que morrer de medo, eles me revoltam.
Aquela coisa branca arredondada sem nenhum buraco. Você já viu algo mais
revoltante de que uma gema de ovo quebrando e derramando seu líquido
amarelo? O sangue é alegre, vermelho. Mas a gema do ovo é amarela,
revoltante. Eu nunca a provei” Alfred Hitchcock

Crédito: Opperaa

Se Interlúdio era o indício de que Hitchcock havia atingido a sua maturidade cinematográfica e confirmando a sua alcunha de Mestre do Suspense, foi Festim Diabólico que solidificou permanentemente essa posto. Depois deste filme, o cineasta ainda realizaria alguns filmes ruins, é verdade, mas, quando acertava a mão (o que era bem mais frequente a partir desse ponto), entregava-nos uma verdadeira obra-prima, uma produção que não só era um excelente suspense, mas também uma produção de extrema importância para a evolução do cinema contemporâneo.

Este filme foi considerado um desafio para Hitchcock por diversos motivos. O primeiro foi que ele seria o filme inicial da sua produtora, a Transatlantic Films, fundada em conjunto com Sidney Bernstein. Hitch já havia produzido filmes antes (como Um Barco e Nove Destinos e Interlúdio), mas essa seria a primeira vez que o diretor teria total liberdade, já que não precisava dar satisfações a ninguém, nem mesmo a um estúdio. O segundo aspecto é que seria o primeiro filme a cores do Mestre. Mas nada se compara à grande inovação pretendida pelo cineasta neste filme: filmar toda a história como um plano-sequência apenas, ou seja, sem que a câmera parasse de gravar durante toda a sua duração. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Agonia de Amor (1947)

20/05/2011
“Se o filme for bom, o som pode sumir que o público ainda teria uma idéia
perfeitamente clara do que está acontecendo” Alfred Hitchcock

Crédito: Doctor Macro

Foi David O. Selznick que trouxe Alfred Hitchcock para os Estados Unidos. Com o sucesso de …E O Vento Levou, o primeiro foi alçado ao posto de maior produtor de Hollywood, e tinha condições como nenhum outro produtor independente de contratar os melhores profissionais. Hitch, com todos os seus sucessos na Europa, interessou a Selznick, que o escolheu para filmar seu primeiro longa depois da sua saga sobre a Guerra da Secessão: Rebecca, a Mulher Inesquecível. Depois, a parceria continuou com o regular Quando Fala o Coração e terminou, ainda bem, com este Agonia de Amor.

Este “ainda bem” é justificado pelo fato de Selznick ser um maníaco por controle em todas as suas produções. Se suas interferências contribuíram para o sucesso de Rebecca, elas impediram que Quando Fale o Coração e Agonia de Amor tivessem o mesmo destino. Neste filme, em especial, foi o gênio de Selznick que causou a sua derrocada: ele obrigou Hitchcock a refilmar cenas, cortou vários minutos do filme, além de ter assumido para si a função de roteirista. Quando Hitchcock foi entrevistado pelo cineasta François Truffaut a respeito deste filme, ele afirmou que o seu fracasso pode ser explicado pela uma infeliz escolha de elenco. Desculpe, Mestre, mas discordo. Ou melhor, acho que você quis ocultar que o buraco era mais embaixo, e preferiu não comentar o quanto Selznick maculou um de seus mais promissores trabalhos, que, se não é tão ruim assim (pelo menos não é monótono), não nos engaja em nenhum momento. É muito estranho dizer isso, principalmente ao perceber que o último filme de Hitch foi Interlúdio, uma obra espetacular, cujo suspense é desenvolvido da melhor forma pelo cineasta até então. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Interlúdio (1946)

16/05/2011
“A televisão é como a torradeira americana, você aperta o botão e a mesma
coisa salta toda a vez” Alfred Hitchcock

Crédito: ERIKO.art

Durante toda a sua carreira no cinema, Hitchcock conviveu com erros e acertos. Na sua fase britânica, se recebeu elogios com A Dama Oculta, perdeu-se completamente com O Mistério do Número 17. Quando o cineasta trocou a Inglaterra pelos Estados Unidos, suas obras deram um salto notável na qualidade. Nos seus primeiros anos em Hollywood, Hitch dirigiu produções aclamadas como Rebecca, a Mulher Inesquecível e Suspeita, mas, mesmo com toda a sua experiência, ainda cometia falhas, como prova o horrendo Um Casal do Barulho. No entanto, com Interlúdio, ele entraria em uma nova fase, firmando-se definitivamente como o Mestre do Suspense e preparando terreno para suas grandes obras-primas.

Nunca entendi o título de português deste filme. Interlúdio é um tipo de intervalo entre dois atos (como numa peça), mas não consigo fazer relação a este conceito com a trama do filme. E, por falar nela, adivinha onde ela se passa? Aqui mesmo, no Brasil! Apesar de Hitch não ter filmado nenhuma cena por aqui, somos agraciados com vários personagens (como os de Cary Grant e Claude Rains) falando em português e fazendo menção a locais brasileiros, como a cidade de Petropólis. Além disso, temos até um ator brasileiro em cena, Ricardo Costa, que interpreta o Dr. Barbosa! Só o fator curiosidade já valeria a pena assistir a Interlúdio, mas como veremos a seguir, ele tem muito, muito mais a nos oferecer. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Quando Fala o Coração (1945)

12/05/2011
“A televisão tem feito muito pela psiquiatria ao espalhar informações sobre
ela, bem como ao contribuir para a necessidade dela” Alfred Hitchcock

Créditos: Art Net

O grande objetivo de Quando Fala o Coração (uma tradução horrível para um título que significa, de verdade, “confuso”, “desnorteado”) é ser o primeiro a tratar da psicanálise, o campo clínico criado por Sigmung Freud, no cinema. Na verdade, antes deste, outros filmes já haviam abordado o método, mas sem o mesmo destaque. Aqui, a psicanálise está no centro dos acontecimentos, já que ela é única arma capaz de solucionar os mistérios do filme. Infelizmente, essa decisão foi equivocada, e o Quando Fala o Coração não consegue cativar o espectador em comparação com outros suspenses de Hitch.

O problema desse filme é que ele não é um suspense propriamente dito. Na concepção de Hitchcock, o suspense só acontece quando o espectador possui informações importantíssimas para a trama, e que são desconhecidas pelo personagem. Por exemplo, existe suspense quando sabemos que o tio Charlie, de A Sombra de Uma Dúvida, é um criminoso, algo que sua família nem desconfia. De acordo com o Mestre, isso faz com que a nossa emoção aflore, e assistamos ao filme de maneira muito mais interessada. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Um Barco e Nove Destinos (1944)

08/05/2011
“Não se deve nunca armar um assassinato. Eles devem acontecer
inesperadamente, como na vida” Alfred Hitchcock

Créditos: Cinema Cem Anos Luz

Nos últimos anos, tem sido lançados vários filmes com a proposta de fazer os personagens se relacionarem em um único cenário. Posso citar, a título de exemplificação, Presos no Gelo, Enterrado Vivo e Demônio. E, sempre que esse tipo de filme fica em cartaz, existem aqueles que perguntam: “É possível um filme se sustentar por 1 hora e meia em apenas um cenário?”, esquecendo-se de que essa dúvida já foi sanada ainda em 1944, com Um Barco e Nove Destinos, de Hitchcock.

Extremamente inovador para sua época, Hitch levou mais adiante a premissa de A Dama Oculta e agora confinou nove personagens em um pequeno bote salva-vidas. Oito deles são náufragos de um navio inglês bombardeado por um submarino alemão durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto que um deles é o capitão desta embarcação nazista, que também afundou. Está formado um conflito que, se prende a atenção do espectador até o fim, mostrando mais uma vez a genialidade de Hitch, deve incomodar as plateias contemporâneas, devido ao seu tom excessivo de propaganda. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: A Sombra de uma Dúvida (1943)

04/05/2011
“A televisão é como a invenção da solda caseira. Ela não mudou o hábito das
pessoas. Ela apenas as manteve dentro de casa” Alfred Hitchcock

Crédito: Avatares de um Desejo

A Sombra de uma Dúvida é considerado o filme favorito de Hitchcock, apesar do cineasta ter afirmado em algumas entrevistas que era apenas “um de seus preferidos”. Essa afirmação pode parecer estranha, já que A Sombra de Uma Dúvida nunca parece figurar nas listas de obras-primas do Mestre, que sempre inclui Psicose, Janela Indiscreta, Os Pássaros, Um Corpo que Cai e Festim Diabólico. Realmente, o filme não chega a ser um grande triunfo de Hitch, mas sem dúvida é o seu melhor suspense desde que começou a sua carreira como cineasta.

Vemos aqui, pela primeira vez, um Hitchcock já totalmente em sincronia com a cultura norte-americana. Ele consegue captar com perfeição a atmosfera de uma típica cidadezinha dos Estados Unidos, localizada ao norte da Califórnia, e talvez seja por isso que o suspense funciona: nós tememos por aqueles cidadãos ingênuos e pacatos quando um criminoso, Charlie (Joseph Cotten, de Cidadão Kane), chega de trem à cidade. Essa sequência é genial, com a fumaça da locomotiva simbolizando a chegada do mal. O homem vem para ficar com a sua irmã (Patricia Collinge, num papel memorável e apaixonante), cuja filha, também chamada de Charlie (Teresa Wright), o idolatra. No entanto, ela cada vez mais suspeita que seu tio esconda alguma coisa da família. Continue lendo »