Projeto Hitchcock: Juno and the Paycock (1930)

31/07/2011

“A vingança é doce e não engorda” Alfred Hitchcock

Crédito: Movie Mail

Uma das maiores críticas de Hitchcock às produções cinematográficas de sua época é que elas pareciam “filmes com pessoas falando”. Ele queria dizer que essas obras não tiram vantagem das possibilidades do cinema, investindo mais em diálogos do que em imagens propriamente ditas. O que é curioso é que o próprio Hitch, na sua fase britânica, fez pelo menos dois “filmes com pessoas falando”. Um deles é The Skin Game, um filme subestimado por crítica e público que, na verdade, estava bem frente à sua época. No entanto, abusava de diálogos e Hitch admitiu que não conseguiu transformar a peça de teatro original em imagens fílmicas. O outro é Juno and the Paycock, que também é calcada nas conversas entre os seus personagens, mas, infelizmente, não possui a qualidade que o roteiro de The Skin Game tinha.

O mote principal é uma herança inesperada que é deixada para uma família pobre, na Irlanda dos anos 20. O dinheiro, que deveria ajudá-los a escapar das suas condições miseráveis, acaba por destruí-los. O longa seria bem mais interessante de se assistir se esse conflito fosse melhor explorado: o problema é que ele está diluído pela uma hora e meia de duração do filme, só se tornando o foco narrativo nos trinta minutos finais. Continue lendo »

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Projeto Hitchcock: The Pleasure Garden (1925)

29/07/2011

“Sorte é tudo… Minha sorte na vida foi ser uma pessoa muito assustada. Eu tenho sorte de ser um covarde, de tolerar pouco o medo, porque um herói não poderia fazer um bom filme de suspense” Alfred Hitchcock

Crédito: Film Fanatic

Dançarinas de uma companhia descendo uma escada em espiral. Essa é a primeiríssima cena do primeiro filme verdadeiramente dirigido por Alfred Hitchcock (o seu primeiro nessa função, Number Thirteen, nunca foi terminado, e, em um outro, Always Tell Your Wife, ele apenas finalizou o filme pelo diretor original ter ficado doente). Coincidentemente, ela traz um dos elementos mais usados pelo cineasta em seus filmes posteriores: uma escala. Ela foi utilizada em cenas importantíssimas em filmes como Interlúdio, O Homem que Sabia Demais, Psicose, e, obviamente, Um Corpo que Cai. E, como eu adoro um jogo de palavras, também dá para dizer que The Pleasure Garden serviu de escada para a evolução cinematográfica de Hitch.

O trocadilho não é leviano. Por ser a sua primeira experiência verdadeira por trás das câmeras, dá pra perceber o quanto Hitch era inexperiente. Neste filme, ele mal chegou a fazer suas experiências técnicas, uma característica que ele manteve até o seu filme derradeiro, Trama Macabra. A sua obra seguinte, The Mountain Eagle, é considerada perdida, e a sua terceira, O Inquilino, já mostra um Hitchcock fascinado pela imagem, edição e o poder do cinema de gerar uma reação das pessoas. Então, dá pra sugerir que The Pleasure Garden (e talvez The Mountain Eagle) tenha possibilitado que Hitch se acostumasse com o posto de diretor, além de entender as suas funções e responsabilidades. Com tanta coisa para absorver, é quase impossível começar a testar as possibilidades do meio cinematográfico, quanto mais desenvolver um estilo próprio. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Trama Macabra (1976)

27/07/2011

“Uma vez eu organizei um jantar, há muitos anos, no qual toda a comida era azul” Alfred Hitchcock

Crédito: Empire Online

Enfim, com Trama Macabra, chegamos ao fim da carreira cinematográfica do Mestre do Suspense. Isso não quer dizer, porém, que o Projeto Hitchcock tenha acabado, já que existem ainda quatro filmes do cineasta que ainda serão analisados: The Pleasure Garden, Downhill, Juno and The Paycock e Valsas de Viena, todos da sua fase britânica. Mas isso fica pra depois: o foco agora é discutir o canto do cisne de Hitchcock no cinema.

E que canto divertido foi esse! Trama Macabra, de macabra não tem nada. É uma obra bastante leve, uma marca do seu roteirista, Ernest Lehman, que já havia sido muito feliz em uma parceria anterior com Hitchcock, que resultou em Intriga Internacional. Como este filme de 1959, Trama Macabra logo se mostra como uma obra que não se deve levar muito a sério. Seu único objetivo é entreter, algo que ele consegue fazer muito bem. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Frenesi (1972)

24/07/2011

“Filme os seus assassinatos como cenas de amor, e as suas cenas de amor como assassinatosAlfred Hitchcock

Créditos: Hitchcockfans

Alfred Hitchcock descreveu “run for cover” como uma técnica na qual os cineastas, quando se vêem numa má fase, tentam resgatar seu sucesso através da reutilização de fórmulas que já haviam dado certo em filmes anteriores. Um dos melhores exemplos dessa estratégia na carreira do Mestre é com Frenesi, de 1972. Nessa época, ele estava colecionando fracasso atrás de fracasso (Cortina Rasgada teve um resultado razoável nas bilheterias, mas os críticos detestaram-no), chegando ao fundo do poço com Topázio, seu trabalho mais irregular desde Um Casal do Barulho, feito quase trinta anos antes. Então, se o que ele estava fazendo não dava certo, o que tentar? Mais um filme sobre um homem acusado de um crime que não cometeu, é claro!

A escolha parece ter dado certo, já que a obra foi sucesso de púbico e crítica, e Hitch voltou a ter uma posição de prestígio na indústria cinematográfica. Apesar de Frenesi divertir e ter todos os elementos de vários filmes de sucesso do Mestre, ele falha ao não apresentar nada de novo à sua filmografia, dando a impressão de que é um mero apanhado de ideias já vistas e revistas antes. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Topázio (1969)

21/07/2011

“O homem não vive só de assassinatos. Ele precisa de afeição, aprovação, encorajamento e, ocasionalmente, uma refeição quente” Alfred Hitchcock

Crédito: HD Mania

Eis que chegamos em 1969. Hitchcock, o consagrado Mestre do Suspense, estava desacreditado por grande parte da indústria cinematográfica, da imprensa e até das plateias. Desde Psicose que o cineasta não conseguia produzir um grande sucesso, tanto de crítica quanto de público – Os Pássaros e Marnie só passariam a ser cultuados anos depois. Acreditava-se que a forma de Hitch fazer cinema estava ultrapassada, a antiga Hollywood estava morta e outra, diferente, estava se formando. Para os chefes dos estúdios, não havia mais tanto espaço para fantasias como as que Hitch fazia – o negócio agora era apostar em obras mais realistas e que debatessem o cenário social, político e econômico da época. É dessa linha de pensamento que nascem verdadeiras obras-primas do cinema como Perdidos na Noite, Adivinhe Quem Vem Para Jantar, Easy Rider – Sem Destino, O Sol é Para Todos e Z. Este último é considerado um dos melhores thrillers políticos já feitos, e talvez possa ter influenciado Topázio, que, infelizmente, não consegue ser nem a metade do que a obra de Costa-Gavras é.

Antes de começar, o filme já estava fadado ao fracasso, já que a Universal exigiu que Hitch filmasse a sua versão do best-seller de Leon Uris, em vez de deixar o Mestre escolher a sua próxima produção. O estúdio provavelmente queria “atualizar” o Mestre, dando a ele roteiros mais verossímeis e modernos. Com a saúde mais debilitada pela idade e obrigado a tocar um projeto que não o atraía (ele odiava filmes políticos), não podemos esperar que Hitchcock fizesse grande coisa com Topázio. Mas até que ele tentou. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Cortina Rasgada (1966)

18/07/2011

Nos filmes, assassinatos são sempre muito limpos. Eu mostro o quão difícil é e  como é repugnante matar um homem” Alfred Hitchcock

Créditos: GoneMovie

Cortina Rasgada marca o começo da lenta decadência do Mestre do Suspense. Depois, de Marnie – Confissões de uma Ladra, Hitchcock ainda faria quatro filmes, incluindo este, mas que não teriam mais aquele charme das produções de antigamente, nem a mesma força narrativa/visual. Neste caso, até que o cineasta conseguiu um belo resultado final, contando uma história bem amarrada, que faz muito bom uso do mistério, do suspense e da ação. Há excelentes sequências visuais, como a hoje famosa cena do assassinato na fazenda. No entanto, o filme é totalmente equivocado no sentido de construção de personagens: os dois protagonistas são irritantes ao extremo, enquanto que os que deveriam ser os vilões acabam por ganhar pelo menos um pouco da nossa simpatia.

Esta obra é revestida de um contexto político, algo raro na carreira de Hitchcock, que não o considerava um assunto empolgante. A política só apareceu com mais destaque em seus filmes-propaganda, realizados em meio à Segunda Guerra Mundial, mas mesmo nestes, ela andava lado a lado com o suspense e o drama. Com Cortina Rasgada não é diferente, já que o cenário da Guerra Fria é utilizado apenas como pano de fundo para que as habituais intrigas e maquinações criadas pelo Mestre aconteçam. No caso, seguimos o cientista Michael Armstrong (Paul Newman) e sua assistente e noiva, Sarah Sherman (Julie Andrews) em uma viagem apenas de ida para a Berlim Oriental, atrás da Cortina de Ferro. Armstrong, após ter o seu projeto nuclear cancelado pelo governo dos Estados Unidos, deserta para o bloco comunista. Sherman, que não sabia desse plano, desaponta-se com o noivo, mas o segue mesmo assim. Mal sabia ela que Armstrong poderia ter outros interesses nessa viagem… Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Marnie, Confissões de uma Ladra (1964)

15/07/2011

“Todas as cenas de amor que começam no set continuam no camarim” Alfred Hitchcock

Crédito: Flow my Tears

A última vez em que Hitchcock havia decidido filmar um suspense com uma roupagem explicitamente psicológica foi em Quando Fala o Coração. A tentativa não deu muito certo devido ao foco exagerado nas análises psicanalíticas, o que tornou o ritmo do filme lento. Anos depois, Hitch voltaria a tratar do assunto, mas de forma reduzida, em Psicose, o seu maior sucesso até então. A conjunção de temáticas só voltaria, com força total, em Marnie, Confissões de Uma Ladra, que é certamente muito melhor que quando fala o coração. Seria mais uma obra-prima do Mestre não fossem algumas falhas que impedem o espectador de ter uma experiência plenamente satisfatória como nos seus filmes anteriores. Mesmo não sendo perfeito, Marnie, de 1964, marca o fim da fase de ouro de Hitchcock, que para mim começou uma década antes, em 1954, com Janela Indiscreta. A decadência de Hitch seria por conta da idade? Ele já contava com 65 anos no lançamento de Marnie. Eu não sei, só o que posso afirmar é que, a partir de Cortina Rasgada, o fator entretenimento, que sempre poderia se associar aos seus filmes, começou a diminuir gradativamente. Continue lendo »