A Árvore da Vida (Dir: Terrence Malick)

21/09/2011

Atuação de Brad Pitt é um dos grandes destaques de A Árvore da Vida

Quando havia acabado de assistir A Árvore da Vida nos cinemas, aconteceu algo que eu nunca havia presenciado até então: pessoas da plateia reclamando em voz alta que odiaram o filme e/ ou não o entenderam. Esse fato, somado com as mensagens de repúdio sobre o filme postadas no fórum do IMDB (Internet Movie Database), serve para mostrar que o filme de Terrence Malick (de Além da Linha Vermelha e O Novo Mundo) não é para todos os gostos. É uma obra que vai exigir muita reflexão e concentração da parte dos espectadores, o que não significa que ela seja insuportável. Na verdade, para quem aprecia cinema feito com qualidade vai se deliciar com a estética criada por Malick, sem dúvida uma das mais inventivas dos últimos anos.

A árvore do título, primeiramente, se refere a uma muda plantada pelo senhor O’Brien (Brad Pitt) e seus filhos, ainda muito pequenos. A partir daí, o filme inteiro vai girar em torno da relação tensa entre o pai e os três filhos. Um deles, Jack (Hunter McCracken na infância e Sean Penn na idade adulta), um menino inocente e brincalhão que, pouco a pouco, passa a se desencantar com a vida. Ao chegar à maturidade, ele se vê sem saída, acuado num mundo que não o acolheu. Continue lendo »

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Projeto Hitchcock: Downhill (1927)

04/08/2011

“Medo não é tão difícil de se entender. Afinal de contas, nós não tínhamos tantos medos quando éramos crianças? Nada mudou desde que a Chapeuzinho Vermelho encontrou o Lobo Mau. O que nos assusta hoje é exatamente o mesmo tipo de coisa que nos assustava ontem. É só um lobo diferente. Esse complexo de susto está enraizado em todo indivíduo” Alfred Hitchcock

Crédito: Laboratorio Audiovisivi

O Inquilino, de 1927, mostrou que a parceria entre o jovem Alfred Hitchcock e o ator Ivor Novello havia dado muito certo. O filme havia sido um grande êxito de crítica e público, o primeiro na carreira do cineasta. Por isso, logo depois a dupla se uniu novamente para filmar Downhill, baseado numa peça do próprio Novello e de Constance Collier (a senhora Atwater de Festim Diabólico). Só que, dessa vez, o sucesso não veio. Talvez as pessoas estivessem esperando um novo thriller, e se depararam com um melodrama. Talvez elas não tenham apreciado o tom pessimista da obra. Tanto tempo depois do lançamento do filme, é impossível descobrir o que o público não aprovou em Downhill. Até porque o filme não é ruim. Pode ser pouco original e confuso às vezes, mas ruim não é.

Novello encarna mais uma vez o papel de um homem acusado de algo que não cometeu. O livro Hitchcock Truffaut Entrevistas informa que o protagonista, o estudante Roddy, furtou alguma coisa de uma loja nos arredores da sua escola. Encontrei essa descrição em outras fontes, mas o que realmente deu a entender é que a moça que cuidava da loja acusou Roddy de tê-la engravidado, quando, na verdade, o pai é o colega de quarto do estudante, Tim (Robin Irvine, que voltaria a atuar para Hitchcock um ano depois, no pavoroso Mulher Pública). A amizade e o afeto existente entre os dois impede que Roddy diga a verdade, mas seu silêncio vai fazer com que o estudante decaia cada vez mais (daí o título do filme, Downhill, que significa algo como “declínio”). Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Juno and the Paycock (1930)

31/07/2011

“A vingança é doce e não engorda” Alfred Hitchcock

Crédito: Movie Mail

Uma das maiores críticas de Hitchcock às produções cinematográficas de sua época é que elas pareciam “filmes com pessoas falando”. Ele queria dizer que essas obras não tiram vantagem das possibilidades do cinema, investindo mais em diálogos do que em imagens propriamente ditas. O que é curioso é que o próprio Hitch, na sua fase britânica, fez pelo menos dois “filmes com pessoas falando”. Um deles é The Skin Game, um filme subestimado por crítica e público que, na verdade, estava bem frente à sua época. No entanto, abusava de diálogos e Hitch admitiu que não conseguiu transformar a peça de teatro original em imagens fílmicas. O outro é Juno and the Paycock, que também é calcada nas conversas entre os seus personagens, mas, infelizmente, não possui a qualidade que o roteiro de The Skin Game tinha.

O mote principal é uma herança inesperada que é deixada para uma família pobre, na Irlanda dos anos 20. O dinheiro, que deveria ajudá-los a escapar das suas condições miseráveis, acaba por destruí-los. O longa seria bem mais interessante de se assistir se esse conflito fosse melhor explorado: o problema é que ele está diluído pela uma hora e meia de duração do filme, só se tornando o foco narrativo nos trinta minutos finais. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Um Corpo que Cai (1958)

03/07/2011

“Para fazer um grande filme, você precisa de três coisas: o roteiro, o roteiro e o roteiro” Alfred Hitchcock

Crédito: Cinema na Mangueirosa

Esqueça Quando Fala o Coração, com suas terminologias e análises psicanalistas. Desconsidere o “microcosmos de guerra” de Um Barco e Nove Destinos. Deixe de lado os conflitos intercalasses de The Skin Game: Um Corpo que Cai é o mais complexo filme de Hitchcock, tratando de uma infinidade de temas, mas sempre destacando a condição humana e a emoção inerente a ela. Sim, existe suspense neste filme, mas o que parece ser importante aqui são as relações entre as pessoas, que nunca pareceram tão verdadeiras e humanas num filme do Mestre. Por saber juntar a sua fórmula tradicional a inovações na narrativa, Um Corpo que Cai é mais uma obra-prima do cineasta.

A história parece banal quando é resumida em uma sinopse – quem não a conhece pode muito bem duvidar de estarmos falando de um dos maiores clássicos do cinema. Ela começa com uma perseguição policial, que culmina com a fuga do bandido, a morte de um oficial e o afastamento de outro, o detetive John ‘Scotty’ Ferguson (James Stewart, em sua última colaboração com Hitch – antes vieram Festim Diabólico, Janela Indiscreta e O Homem que Sabia Demais), por ele descobrir que tem acrofobia, ou medo de altura. Entretanto, ele aceita um último trabalho de detetive: seguir a esposa de um amigo seu, Madeleine (Kim Novak). O homem desconfia que ela esteja louca, e pede a Scotty que descubra tudo o que ela faz quando passa as tardes fora de casa. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Sob o Signo de Capricórnio (1949)

01/06/2011
“Eu entendo que o inventor da gaita de fole foi inspirado quando viu um
homem carregando um porco asmático e indignado sob seus braços.
Infelizmente, o som artificial nunca se igualou à pureza do som obtido pelo
porco” Alfred Hitchcock

Crédito: DVD Beaver

Sob o Signo de Capricórnio foi um dos maiores fracassos de bilheteria de Hitchcock, talvez o maior. Possivelmente, por ser um filme de Hitchcock. Não entendeu? Pois eu explico. A essas alturas de sua carreira, o cineasta já era considerado o Mestre do Suspense, e o público da época, quando saía de casa para ir ver um de seus filmes, ansiava por uma narrativa tensa e instigante, quem sabe com boas cenas de ação. No entanto, Sob o Signo de Capricórnio não tinha nada disso, o que pode ter deixado as pessoas decepcionadas. O filme não é um suspense, e sim, um drama de época. Mas, mesmo Hitch não estando em seu campo de conforto (e sabemos que quando ele se afastou do suspense criou verdadeiras bombas, como Champagne e Um Casal do Barulho), o diretor conseguiu filmar um filminho bem interessante. Não é um de seus melhores, há de se convir, mas ele tem suas qualidades, que são o suficiente para torná-lo agradável de se assistir.

Hitch revelou em entrevistas que fez esse filme apenas para contar com a presença de Ingrid Bergman, que era, naquela época, a maior estrela de Hollywood. Ele nem mesmo gostava do material que originou o longa, mas achava que seria um bom veículo para Ingrid. Vale lembrar que ele agora tinha sua própria produtora, a Transatlantic Pictures, e era preciso produzir filmes lucrativos. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Agonia de Amor (1947)

20/05/2011
“Se o filme for bom, o som pode sumir que o público ainda teria uma idéia
perfeitamente clara do que está acontecendo” Alfred Hitchcock

Crédito: Doctor Macro

Foi David O. Selznick que trouxe Alfred Hitchcock para os Estados Unidos. Com o sucesso de …E O Vento Levou, o primeiro foi alçado ao posto de maior produtor de Hollywood, e tinha condições como nenhum outro produtor independente de contratar os melhores profissionais. Hitch, com todos os seus sucessos na Europa, interessou a Selznick, que o escolheu para filmar seu primeiro longa depois da sua saga sobre a Guerra da Secessão: Rebecca, a Mulher Inesquecível. Depois, a parceria continuou com o regular Quando Fala o Coração e terminou, ainda bem, com este Agonia de Amor.

Este “ainda bem” é justificado pelo fato de Selznick ser um maníaco por controle em todas as suas produções. Se suas interferências contribuíram para o sucesso de Rebecca, elas impediram que Quando Fale o Coração e Agonia de Amor tivessem o mesmo destino. Neste filme, em especial, foi o gênio de Selznick que causou a sua derrocada: ele obrigou Hitchcock a refilmar cenas, cortou vários minutos do filme, além de ter assumido para si a função de roteirista. Quando Hitchcock foi entrevistado pelo cineasta François Truffaut a respeito deste filme, ele afirmou que o seu fracasso pode ser explicado pela uma infeliz escolha de elenco. Desculpe, Mestre, mas discordo. Ou melhor, acho que você quis ocultar que o buraco era mais embaixo, e preferiu não comentar o quanto Selznick maculou um de seus mais promissores trabalhos, que, se não é tão ruim assim (pelo menos não é monótono), não nos engaja em nenhum momento. É muito estranho dizer isso, principalmente ao perceber que o último filme de Hitch foi Interlúdio, uma obra espetacular, cujo suspense é desenvolvido da melhor forma pelo cineasta até então. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Quando Fala o Coração (1945)

12/05/2011
“A televisão tem feito muito pela psiquiatria ao espalhar informações sobre
ela, bem como ao contribuir para a necessidade dela” Alfred Hitchcock

Créditos: Art Net

O grande objetivo de Quando Fala o Coração (uma tradução horrível para um título que significa, de verdade, “confuso”, “desnorteado”) é ser o primeiro a tratar da psicanálise, o campo clínico criado por Sigmung Freud, no cinema. Na verdade, antes deste, outros filmes já haviam abordado o método, mas sem o mesmo destaque. Aqui, a psicanálise está no centro dos acontecimentos, já que ela é única arma capaz de solucionar os mistérios do filme. Infelizmente, essa decisão foi equivocada, e o Quando Fala o Coração não consegue cativar o espectador em comparação com outros suspenses de Hitch.

O problema desse filme é que ele não é um suspense propriamente dito. Na concepção de Hitchcock, o suspense só acontece quando o espectador possui informações importantíssimas para a trama, e que são desconhecidas pelo personagem. Por exemplo, existe suspense quando sabemos que o tio Charlie, de A Sombra de Uma Dúvida, é um criminoso, algo que sua família nem desconfia. De acordo com o Mestre, isso faz com que a nossa emoção aflore, e assistamos ao filme de maneira muito mais interessada. Continue lendo »