Projeto Hitchcock: Intriga Internacional (1959)

06/07/2011

“Nosso título original era ‘O Homem no Nariz de Lincoln’. Entretanto, não podíamos usá-lo. Eles também não nos deixaram atirar em pessoas no Monte Rushmore. Não se pode denegrir um monumento nacional. E é uma pena, mesmo, porque eu tinha uma tomada excelente na minha cabeça de Cary Grant se escondendo no nariz de Lincoln e tendo uma crise de espirro” Alfred Hitchcock, sobre Intriga Internacional

Intriga Internacional é mais uma tradução sem pé nem cabeça que os distribuidores brasileiros deram a um filme de Hitchcock. Fomos “agraciados” com títulos como O Marido Era o Culpado (Sabotage), Um Casal do Barulho (Mr. and Mrs. Smith) e o revelador em demasia Um Corpo que Cai (Vertigo). O título original deste filme de 1959 era North by Northwest, bem criativo no sentido de indicar o trajeto do personagem principal pelos Estados Unidos: ele começava em Nova York e terminava no famoso Monte Rushmore (aquele com os rostos de quatro ex-presidentes do país), na Dakota do Sul. A nossa tradução é meio incoerente pela tal “intriga” do título nunca se concretizar, mas não chega aos pés do roteiro do filme, que não faz sentido algum!

 O cineasta François Truffaut fez duas declarações corretas a respeito deste filme: que ele pode ser considerado o resumo da fase americana de Hitch, e que é impossível escrever uma sinopse satisfatória sobre o longa. Expliquemos: Intriga Internacional é mais um filme em que um homem inocente é perseguido por um crime que não cometeu. Mas, se neste aspecto ele reúne diversos elementos hitchcockianos, ele se afasta dos outros por seu ritmo absurdamente rápido, cenas de ação absurdamente irreais e passagens absurdamente farsescas. Ou seja, o filme todo é um absurdo… mas a diferença aqui é que Hitchcock quer que o filme seja assim, por isso é difícil resumi-lo. Podemos nos contentar com uma descrição mínima: Roger Thornhill (Cary Grant, que já havia sido dirigido pelo Mestre em três obras – Suspeita, Interlúdio e Ladrão de Casaca), um publicitário bem-sucedido, é confundido por um bando de criminosos por um agente do governo, dando início a uma perseguição que vai atingir seu famoso clímax entre os bustos dos presidentes americanos, no Monte Rushmore. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: O Homem que Sabia Demais (1956)

27/06/2011

“Auto-plagiar-se é estilo” Alfred Hitchcock

Crédito: Film Forum

Em 1934, um filme cuja trama girava em torno de sequestros e espionagem foi o responsável por revitalizar a carreira de um cineasta que havia passado por maus momentos em seu estúdio anterior. O filme era O Homem que Sabia Demais. O diretor, Alfred Hitchcock. 22 anos depois, o diretor, já chamado de Mestre do Suspense, resolveu refilmar essa obra que foi tão importante para sua filmografia. Embora o remake não tenha sido tão decisivo na sua carreira como foi o original (afinal, nessa época, Hitch já havia atingido graus de genialidade como diretor e estava, portanto, com a sua carreira consolidada), ele é bastante superior ao seu antecessor. Como o próprio Hitchcock classificou, O Homem que Sabia Demais de 56 é fruto de um profissional, enquanto que o de 34 foi feito por um amador.

 O conflito principal dessa produção permanece quase o mesmo em relação ao primeiro longa: trata-se de um casal que tem seu filho sequestrado durante férias no exterior e que, sem poder recorrer à polícia, precisam encontrá-lo sozinhos. Fora isso, existem várias diferenças. Os britânicos são substituídos por um casal americano: James Stewart, em seu terceiro filme com Hitch (fez os soberbos Festim Diabólico e Janela Indiscreta) e Doris Day, como Ben e Jo McKenna, respectivamente. Em vez da Suíça, eles viajam com seu filho (e não filha, como no original) Hank (Christopher Olsen) para o Marrocos, onde um agente secreto (Daniel Gélin) confidencia um segredo a Hank antes de morrer. Para que eles fiquem calados, uma organização de assassinos sequestra Hank. Sem saída, o casal é obrigado a viajar para a Inglaterra e tentar resgatá-lo. Apesar das diferenças, o famoso clímax nas duas produções acontecem no mesmo local: o Royal Albert Hall. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Correspondente Estrangeiro (1940)

18/04/2011
“Me assusto facilmente, aqui está uma lista da minha produção de adrenalina:
1 – criancinhas; 2 – policiais; 3 – lugares altos; 4 – que meu próximo filme não
vá ser tão bom quanto o último” Alfred Hitchcock

Crédito: Film Expression

Com Correspondente Estrangeiro, Hitchcock realiza o seu primeiro suspense em Hollywood, ainda que o filme se passa quase que totalmente na Europa. Embora ele não chegue nem perto das obras-primas que o cineasta realizaria apenas alguns anos mais tarde, esse filme serve para demonstrar o apuro técnico de Hitch em todos os níveis cinematográficos, além de conseguir entreter durante as suas duas horas de duração.

Esse longa trata de um período até hoje pouco visto no cinema: os dias de tensão e medo logo antes da Segunda Guerra Mundial começar. Não vemos grandes batalhas ou estratégias militares em Correspondente Estrangeiro, apenas políticos, jornalistas e outros profissionais fazendo de tudo para impedir um conflito iminente contra a Alemanha, o que não deixa de ser uma inovação para os thrillers de guerra. Vale lembrar que o filme foi lançado quando a Guerra estava apenas começando. Aqui, acompanhamos o repórter policial estadunidense transformado em correspondente estrangeiro, John Jones (Joel McCrea, mais famoso por seus filmes de faroeste), ou Huntley Haverstock (renomeado pelo seu editor, que considera seu nome verdadeiro muito comum), na sua cobertura de um tratado pacífico. Mas, como esse é um filme de Hitchcock, ele logo é envolvido em uma trama de espionagem e traição, e passa a correr risco de vida. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Os 39 Degraus (1935)

19/03/2011

“Dê-lhes prazer – o mesmo prazer que têm quando acordam de um pesadelo”  Alfred Hitchcock

Crédito: Doctor Macro

Vários especialistas de Hitchcock consideram Intriga Internacional o filme que melhor resume a obra do cineasta nos Estados Unidos. Quanto à sua fase britânica, existe um igual consenso entre os estudiosos: trata-se de Os 39 Degraus. E eles tem toda a razão, já que este filme é como se fosse um apanhado de várias ideias desenvolvidas pelo Mestre nas décadas de 20 e 30, as suas primeiras na direção.

Primeiramente, temos a temática que pode ser aplicada a quase todos os seus filmes: a do homem acusado injustamente de um crime. Aqui, tal homem é Richard Hannay (Robert Donat). Ele abriga temporariamente em sua casa uma mulher, que se revela uma espiã. Quando ela é assassinada, a polícia, sempre equivocada nos filmes de Hitch, passa a perseguir Hannay pelo crime. Então, ele faz uso da única pista deixada pela espiã, e viaja até a Escócia, com o propósito de limpar o seu nome. No caminho, conhece Pamela (Madeleine Caroll), uma moça que acaba por ajuda-lo, mesmo que tenha duvidado de sua inocência no início. Continue lendo »