Projeto Hitchcock: O Homem Errado (1957)

30/06/2011
“Quando um ator quer discutir o seu personagem comigo, eu digo: ‘Está no roteiro’. Se ele diz, ‘Mas qual é a minha motivação?’, eu respondo, ‘Seu salário’ ” Alfred Hitchcock

Créditos: A Fan Apart

O Homem Errado sempre se destacou da filmografia de Hitchcock como “o filme baseado em uma história verdadeira”. Realmente, o fato da maioria dos acontecimentos mostrados na obra terem acontecido de verdade foi o aspecto que o cineasta mais levou em conta na hora de filmá-lo, mas ele não deveria nunca se limitar a essa descrição. Afinal, O Homem Errado funciona tão bem como mais um suspense de Hitch que pouco importa se o filme é baseado em fatos ou não.

O homem do título é ‘Manny’ Balestrero (Henry Fonda), um músico de um dos clubes mais sofisticados de Nova York, o Stork Club. Ele vive uma vidinha pacata com sua esposa, Rose (Vera Miles, que faria ainda Psicose com Hitchcock) e seus dois filhos, até que, quando vai pedir dinheiro a uma agência de seguros para pagar um tratamento dentário de sua mulher, é confundido com um criminoso por uma atendente. Incapaz de provar sua inocência, ele é preso, o que vai ter graves consequências para ele mesmo e para sua família. Continue lendo »

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Projeto Hitchcock: O Homem que Sabia Demais (1956)

27/06/2011

“Auto-plagiar-se é estilo” Alfred Hitchcock

Crédito: Film Forum

Em 1934, um filme cuja trama girava em torno de sequestros e espionagem foi o responsável por revitalizar a carreira de um cineasta que havia passado por maus momentos em seu estúdio anterior. O filme era O Homem que Sabia Demais. O diretor, Alfred Hitchcock. 22 anos depois, o diretor, já chamado de Mestre do Suspense, resolveu refilmar essa obra que foi tão importante para sua filmografia. Embora o remake não tenha sido tão decisivo na sua carreira como foi o original (afinal, nessa época, Hitch já havia atingido graus de genialidade como diretor e estava, portanto, com a sua carreira consolidada), ele é bastante superior ao seu antecessor. Como o próprio Hitchcock classificou, O Homem que Sabia Demais de 56 é fruto de um profissional, enquanto que o de 34 foi feito por um amador.

 O conflito principal dessa produção permanece quase o mesmo em relação ao primeiro longa: trata-se de um casal que tem seu filho sequestrado durante férias no exterior e que, sem poder recorrer à polícia, precisam encontrá-lo sozinhos. Fora isso, existem várias diferenças. Os britânicos são substituídos por um casal americano: James Stewart, em seu terceiro filme com Hitch (fez os soberbos Festim Diabólico e Janela Indiscreta) e Doris Day, como Ben e Jo McKenna, respectivamente. Em vez da Suíça, eles viajam com seu filho (e não filha, como no original) Hank (Christopher Olsen) para o Marrocos, onde um agente secreto (Daniel Gélin) confidencia um segredo a Hank antes de morrer. Para que eles fiquem calados, uma organização de assassinos sequestra Hank. Sem saída, o casal é obrigado a viajar para a Inglaterra e tentar resgatá-lo. Apesar das diferenças, o famoso clímax nas duas produções acontecem no mesmo local: o Royal Albert Hall. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: O Terceiro Tiro (1955)

24/06/2011

“É apenas um filme, e, afinal, nós todos estamos sendo extremamente bem-pagos” Alfred Hitchcock

Crédito: This Distracted Globe

O Terceiro Tiro é um dos filmes mais incomuns da filmografia de Hitchcock. Eu havia dito na análise de Um Casal do Barulho que aquela obra era uma mistura de suspense e comédia, mas, ao assisti-la novamente, essa visão não mais se sustentou. Na verdade, de suspense O Terceiro Tiro não tem nada: o longa é uma comédia de humor negro das mais deliciosas, com uma abordagem pouco encontrada mesmo no cinema de hoje.

A produção começa com um homem, o capitão Albert (Edmund Glenn, de The Skin Game e Correspondente Estrangeiro) caçando. Como ele é muitobom de mira, dos três tiros que dispara, um atinge uma lata de alumínio, o outro, uma placa, e o último, um homem! Quando tenta enterrá-lo, chega a senhora Gravely (Mildred Natwick) e pergunta a ele, como se aquela cena não tivesse nada de estranho: “Qual é o problema, capitão?”. A indiferença da mulher em relação a um cadáver é só a primeira de inúmeras situações absurdas de O Terceiro Tiro, e a que dá o tom para tudo o que vai acontecer. No decorrer do filme, o defunto, chamado Harry, vai ser enterrado e desenterrado várias vezes, além de ser a causa de várias reviravoltas na história. A graça da história está num morto ser o centro das atenções, e, mesmo assim, ninguém da trama se importa com a sua desagradável situação! Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Ladrão de Casaca (1955)

21/06/2011

“Até os meus fracassos dão lucro e se tornam clássicos um ano depois que eu os fizer” Alfred Hitchcock

Crédito: Expresso Cultural

Ladrão de Casaca, assim como O Terceiro Tiro, o próximo post do CineAnálise, não é um filme sério, como bem definiu o próprio Hitchcock. No entanto, diferentemente deste filme, uma ótima comédia de humor negro, Ladrão parece despretensioso demais. A impressão é que Hitch e o roteirista John Michael Hayes se preocuparam tanto em se divertir, inserindo conotações sexuais, situações engraçadas e belas paisagens, que se esqueceram do essencial: contar uma boa história. Nunca esperava falar isso do meu cineasta preferido, principalmente porque ele havia acabado de completar Janela Indiscreta, que, para mim, é a sua maior realização.

Mesmo não sendo um grande trabalho, o longa é indiscutivelmente de Alfred Hitchcock: o conflito do homem inocente é mais uma vez trazido à baila. Temos também a loira “glacial” (fria na superfície mas fogosa na intimidade), ), a mãe excêntrica, Jessie, as cenas de humor (ainda que aqui elas percam um pouco o foco), além de um romance, literalmente em Ladrão de Casaca, explosivo. Acompanhamos a jornada de John Robie, um ex-ladrão de jóias que é perseguido pela polícia como uma onda de crimes muito parecidos com o que ele costumava cometer. Para ajudá-lo, ele se alia a um corretor de seguros (John Williams, de Disque M Para Matar), a ricaça Jessie (Jessie Royce Landis) e sua filha, Frances (Grace Kelly, em seu último filme com Hitch – seria durante as filmagens de Ladrão que ela conheceria seu futuro marido, o príncipe Rainier de Mônaco). Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Janela Indiscreta (1954)

18/06/2011
“As louras fazem as melhores vítimas. Elas são como virgens que mostram as
pegadas sangrentas” Alfred Hitchcock

Crédito: Intratecal

Enfim, chegamos ao filme que eu considero a maior obra-prima de Hitchcock. É com ele que o Mestre do Suspense atinge o seu auge como cineasta, nele estão expostas as suas melhores ideias cinematográficas: trata-se, é claro, de Janela Indiscreta.

Costuma-se apontar esse longa como o que melhor reuniu as principais características do cinema de Hitchcock. Apesar de concordar com essa afirmação, não acho que ele se resuma a um apanhado de aspectos hitchcockianos: na verdade, Janela Indiscreta se garante muito bem como um dos melhores suspenses já filmados. Aqui, Hitch novamente faz uso do espaço reduzido, e mais uma vez esse fator quase não é percebido, dada a força da história. Ela gira em torno de Jeff (James Stewart, que já havia feito Festim Diabólico com o diretor), um fotógrafo confinado a seu apartamento em Nova York devido a uma perna engessada. Sem nada para fazer, ele passa a observar seus vizinhos: uma mulher solitária, um compositor sem inspiração para escrever uma canção, um casal que trata seu cachorrinho como se ele fosse um filho… e um vendedor, que Jeff suspeita ter matado a esposa inválida. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Disque M Para Matar (1954)

15/06/2011
“Como vocês viram na tela; a melhor maneira de fazer isso é com uma
tesoura”  Alfred  Hitchcock, sobre Disque M Para Matar

Crédito: Desesperada Esperança

O Projeto Hitchcock já entrou na década de 50, um período em que a televisão se popularizou nos Estados Unidos. Como esse novo meio de comunicação transmitia filmes gratuitamente, as pessoas simplesmente pararam de ir ao cinema. Então, para não falirem, os estúdios passaram a produzir filmes bastante atrativos, com recursos que a pequena tela da TV não poderia oferecer. Um deles é a criação de filmes em escala épica, que exigia uma tela maior do que a que existia até então. Nascia o formato anamórfico (o widescreen), que foi popularizado principalmente pela tecnologia CinemaScope, dos estúdios Fox. Outro truque, que teve vida curta mas foi importatíssimo para o cinema, foi o 3D. Vale lembrar que a técnica de hoje é pouco diferente desta dos anos 50. Os filmes em três dimensões eram muito complicados de se projetar e os óculos da época davam dor de cabeça aos espectadores, o que acelerou o seu declínio. Foi já nessa última fase que Disque M Para Matar, de Hitchcock, foi lançado. Concebido em três dimensões, quase nenhum cinema optou por exibi-lo nesse formato. Por isso, hoje, são sortudos os que tiveram a oportunidade de vê-lo como o cineasta pretendia que ele fosse exibido. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: A Tortura do Silêncio (1953)

11/06/2011

“Ver um assassinato na televisão pode ajudar a tirar gradualmente os antagonismos disso. E se você não tiver nenhum antagonismo, os comerciais lhe darão algum”  Alfred Hitchcock

Crédito: Análise Indiscreta

A religião sempre exerceu grande influência em Alfred Hitchcock, particularmente quando ele era uma criança, quando estudou em um colégio de jesuítas. As noções de pecado, maldade e principalmente culpa ficaram marcadas na mente do menino, que, quando cresceu, utilizou ideias em seus filmes calcadas na religião. Além do clássico exemplo do homem inocente acusado de um crime que não cometeu (pode-se fazer um paralelo com o pecado original, que todos os homens herdam, mesmo sem terem feito absolutamente nada), temos também exemplos de personagens atormentados por sentimentos de culpa, mesmo que não estejam, necessariamente, sendo perseguidos pela polícia. Pode-se perceber isso em Chantagem e Confissão, Quando Fala o Coração e Marnie – Confissões de uma Ladra. No entanto, Hitchcock nunca representou a culpa de modo mais pungente e inventivo como em A Tortura do Silêncio.

O filme traz um dos conflitos mais interessantes da carreira do cineasta. Ele envolve um padre chamado Logan (Montgomery Clift), que ouve a confissão de um assassino, mas, pelas leis católicas, não pode denunciar o crime para a polícia. A via sacra interior do sacerdote se complica quando a polícia passa a desconfiar que ele é o culpado do homicídio! Continue lendo »