Projeto Hitchcock: Os Pássaros (1963)

“Um bom filme é quando o preço do jantar, do ingresso e da babá valeram a pena” Alfred Hitchcock

Crédito: Receio sem Remorso

Os Pássaros é um filme atípico na carreira de Hitchcock. Depois de Psicose, ele precisava de uma história que superasse o seu thriller anterior, e, para isso, ele precisava de uma história maior e mais aterrorizante do que as suas tramas costumeiras. Parece muito difícil, mas o Mestre conseguiu: Os Pássaros superou Psicose, pelo fato do medo ser desencadeado por seres tidos como inofensivos, e, principalmente, pelas ações mostradas não terem qualquer motivo para acontecer. Hitchcock percebeu, como poucos, que o medo do desconhecido é o mais horripilante de todos, e é justamente este o que está presente nesta obra, uma de suas melhores.

São tantos os acertos neste filme que eu nem sei por onde começar. Bom, não tem como errar com a sinopse, não é? Pois bem, a história começa do modo mais fútil possível, com uma discussãozinha entre um advogado, Mitch (Rod Taylor), e uma socialite, Melanie (Tippi Hedren, mãe da também atriz Melanie Griffith) em uma loja de pássaros. Depois que ele vai embora, ela passa a se interessar por ele e o persegue até a cidade de Bodega Bay, onde estão acontecendo estranhos ataques de pássaros. Pela história, dá para se perceber que temos uma mudança completa de clima: de uma screwball comedy (ver a crítica de Um Casal do Barulho), passamos a um drama / romance, antes de entrarmos de cabeça num estado absoluto de horror. Nas mãos de qualquer outro diretor, Os Pássaros poderia se tornar uma produção inconstante ou até mesmo incoerente, mas Hitch consegue dar ritmo e unidade à sua trama, nunca deixando-a cansativa ou desinteressante.

Apesar de sua mudança de tom, Os Pássaros consegue cativar graças ao desenvolvimento de personagens. Este filme não é primariamente sobre o ataque dos pássaros, e sim, sobre como um certo número de personagens reagem aos seus ataques. A decisão de Hitch em focar nas pessoas em vez dos animais foi bastante sábia: já imaginou um filme de 2 horas cuja preocupação principal fosse um bando de passarinhos se rebelando contra a humanidade? Aliás, na primeira parte do filme, eles quase não aparecem, e por incrível que pareça, eles não fazem falta. O motivo é que ficamos cada vez mais interessados na tal “história fútil”: queremos saber, a principio, se Melanie vai conseguir encontrar Mitch e seduzi-lo. Depois que os dois se encontram, a trama vai se complicando, à medida que entram outros personagens na história, todos ligados à Mitch: a sua irmã caçula, Cathy (Veronica Cartwright, a eterna Lambert de Alien, o Oitavo Passageiro), que simpatiza com Melanie à primeira vista; a sua ex-namorada, Anne (Suzanne Pleshette), que ainda o ama e, finalmente, a sua mãe possessiva e carente, Lydia (Jessica Tandy, vencedora do Oscar por Conduzindo Miss Daisy). Os novos conflitos que irão surgir entre esses personagens servem para deixar a narrativa bastante movimentada, dando a ela uma força própria. Ou seja, nem se não aparecesse uma ave sequer, esse filme já seria bom. Mas eles aparecem… e como aparecem…

Hitch foi nada menos que brilhante (ele o era com frequência nos anos 50 e início dos anos 60), acalmando os nervos dos espectadores que foram ver o filme apenas para ver os ataques dos pássaros. Como o primeiro deles só acontece depois de 50 minutos de projeção, Hitch ofereceu alguns “aperitivos” para os impacientes: filmou uma investida solitária de uma gaivota aqui, mostrou uma multidão de corvos enfileirados em fios de poste acolá… E, nisso, matou dois coelhos em uma cajadada só: satisfez os ânimos dos mais afoitos, e, mais ainda, criou um clima quase sobrenatural de pavor, uma sensação de que algo muito errado esteja acontecendo, mas que não sabemos o quê (e esse incômodo vai só aumentar com o decorrer do longa), tornando a sua obra gradativamente mais instigante.

Para mim, Os Pássaros pode ser classificado como terror e não como suspense, pelo menos na definição clássica deste gênero desenvolvida pelo Mestre. Para ele, suspense era deixar o público sempre à frente do personagem, para que ele ficasse apreensivo quanto ao seu destino. E nesse filme, nós não sabemos absolutamente nada do que está acontecendo! Ficamos tão perdidos quanto os personagens, com exceção de uma pequena cena no meio do filme, que antecede um ataque de corvos. As sensações evocadas por Hitchcock neste longa não são mais de apreensão, tensão ou expectativa pelo que vai acontecer com os personagens. Aqui, ficamos nada menos que apavorados pelo que pode acontecer, já que o comportamento dos pássaros (e até mesmo o de alguns personagens) é totalmente imprevisível, aflorando em cada um de nós o medo pelo desconhecido. Hitch até mesmo comenta essa mudança de estilo nas suas clássicas entrevistas com Truffaut, revelando que “o velho modo de fazer suspense” estaria “fora de moda”. Não sei se está fora de moda (se estivesse, seus filmes teriam perdido todo o seu impacto, não?), mas posso afirmar com toda a convicção que Hitch conseguiu mais uma vez emocionar e fazer com que prestemos total atenção ao filme. A única diferença é que, agora, não estamos mais adiantados em relação aos personagens, e sim, sofremos junto com eles.

Os ataques dos pássaros são executados de maneira perfeita e impressionam até hoje não só pela dificuldade de execução para os padrões técnicos da época, mas também pela impressão que eles nos deixam. Os ataques vão piorando progressivamente, primeiro com algumas gaivotas, alguns corvos, até que chegamos a um cenário quase apocalíptico em que as aves tomam conta de Bodega Bay, instaurando o caos. O fato deles nos marcarem tanto tem a ver com o fato das sequências serem magníficas do ponto de vista técnico. Através de sons, edições e truques, os pássaros assassinos nos proporcionam uma experiência sensorial única.

A técnica mais usada para tornar realidade a “revolta” dos pássaros foi a do vapor de sódio, criada pelos estúdios Disney e similar ao chroma key, no qual se coloca um ator ou objeto na frente de uma tela verde ou azul (o processo de vapor de sódio necessitava de uma tela amarela) e depois se substitui esse fundo. Em Os Pássaros, ela funcionou perfeitamente, e, para quem consegue se desprender um pouco da nossa atual realidade cinematográfica e dos efeitos computadorizados, dá pra perceber o quanto ela é eficaz. As inserções são muito bem-feitas, dando a impressão que muitos pássaros estão realmente na tela.

Muitas cenas também fazem uso de pinturas para completar o cenário, inseridas também pelo processo de vapor de sódio. Elas também apresentam um nível de realidade impressionante, e, dessa vez, até os espectadores dos dias de hoje podem se espantar com o resultado. Eu, que adoro tentar descobrir como tal tomada é feita em um filme (por exemplo, se ela precisou de um efeito visual ou não), nem suspeitei que alguns enquadramentos continham pinturas até eu assistir aos extras do DVD. Prefiro não dar exemplos porque quero que você também se surpreenda e tente encontrar as (várias) cenas em que o efeito é usado. Garanto que você vai se surpreender.

Mas tais sequências nunca teriam o efeito que tiveram não fosse o som criado para as aves ameaçadoras. Se Hitchcock acertou em qualquer decisão tomada em Os Pássaros, mais do que todas as outras, foi a de não ter uma trilha sonora. Se houvesse música nos momentos mais impactantes do filme, a plateia ficaria mais distraída do que perturbada. Em vez disso, o Mestre optou pelo mínimo: a única “trilha” que escutamos são os sons emitidos pelos próprios pássaros e pelo bater de suas asas. E, entre cada ataque, não produzem qualquer som, criando um silêncio de gelar a espinha… Essa combinação de sons, juntamente com a composição visual dos ataques, consegue elevar o terror a um patamar máximo, quase insuportável, demonstrando a genialidade inquestionável de Hitchcock em causar um impacto nos seus espectadores.

Como exemplo, posso citar três cenas emblemáticas, perto do fim do filme: quando os personagens estão presos em casa, eles apenas ouvem os pássaros circulando o local, com seus pios cada vez mais fortes. A cena é bem impactante, porque, como já foi dito, o medo do que a gente não vê é muito mais forte do que quando a ameaça é revelada. O primeiro arrasa-quarteirão (ou blockbuster, como eu prefiro chamar), Tubarão, está aí para provar essa teoria. Outra sequência é o ataque das aves a um personagem no sótão da casa. Além de ser um exemplo de edição rápida e milimetricamente precisa (lembrando o assassinato no chuveiro, em Psicose), ela ainda mostra o quanto o som pode ser eficiente no cinema: assustamo-nos apenas com o ruído das asas dos pássaros. Aqui, eles não piam de jeito nenhum. Nem precisam! Por fim, temos a última cena, que eu não vou entrar em detalhes, obviamente, mas que nos deixa atônitos pelo som de várias aves piando em conjunto.

Os Pássaros não funciona apenas como terror. Ele também é alegoria. Os ataques são como uma válvula de escape, possibilitando a vazão de todos os temores, angústias existenciais e preconceitos dos personagens – que são próprios da humanidade no geral. Melanie, Mitch, Lydia e toda a população de Bodega Bay não estão desesperados apenas por temerem perder suas vidas: o ataque dos pássaros também os fez olharem para si mesmos e verem suas próprias falhas.

Hitch falava que este filme tinha a ver com o “perigo da complacência”, ou seja, do quanto tomávamos tudo na nossa vida por garantido – nossa liberdade, rotina, familiares e amigos, e até a alegria proporcionada por inofensivos passarinhos – e como essas coisas poderiam ser tomadas de nós de uma hora para outra. O filme pode levar a inúmeras interpretações, e esse é outro aspecto que faz dele uma verdadeira obra-prima do cinema.

Incrível, mas nunca sobra espaço nas minhas críticas para falar das atuações, exceto no final. Bem, antes tarde do que nunca, não é o que dizem? Então vamos lá: Os Pássaros não seria o que foi se não fosse pelo elenco muito bem escolhido. Como já foi dito, é um filme sobre pessoas, e não sobre pássaros, e atores e atrizes de segunda linha teriam diminuído, e muito, a qualidade do filme. Felizmente, Hitch reuniu um grupo com muita química, e que entregou à plateia interpretações consistentes com cada mudança de tom no filme. Muitos criticam Tippi Hedren, mas ela não é “só um rosto bonito” (lindo, neste caso). Ela consegue fazer a transição muito bem da ricaça arrogante para uma mulher corajosa e, finalmente, por mais uma vítima alquebrada pelos pássaros. Rod Taylor é a fortaleza do filme: seu personagem é ao mesmo tempo gentil e decidido, mesmo com tudo desabando à sua volta. E temos também a grande atriz, tanto do teatro quanto do cinema, Jessica Tandy, que é uma mãe hitchcockiana não tão excêntrica quanto às outras, mas igualmente atípica. Tandy encarna com naturalidade Lydia, que teme a solidão, e por isso, exerce um forte domínio nos filhos, de um modo quase que subconsciente.

Os Pássaros tem de tudo: muitas cenas de ação, desenvolvimento de personagens, com direito a romance e comédia e uma gama de efeitos visuais. Mas, acima de tudo, está ali, impresso em cada fotograma, o medo em sua forma mais pura, e por isso mesmo, mais assustadora. Se o suspense estava mesmo fora de moda, Hitchcock, com este filme, acabava de criar uma outra forma de causar algum tipo de impacto nas pessoas, tão eficaz e fascinante quanto a antiga.

FICHA TÉCNICA

Título original: The Birds
Ano de lançamento: 1963
Direção: Alfred Hitchcock
Produção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Evan Hunter, baseado num conto de Daphne Du Marier
Duração: 120 minutos
Elenco: Tippi Hedren (Melanie), Rod Taylor (Mitch), Jessica Tandy (Lydia), Suzanne Pleshette (Anne), Veronica Cartwright (Cathy)
Indicações ao Oscar: Melhores Efeitos Visuais

 Nota: 10.0
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13 Responses to Projeto Hitchcock: Os Pássaros (1963)

  1. […] (Tippi Hedren, de Os Pássaros) tem compulsão por roubar e mentir. O seu modus operandi é arranjar emprego em alguma firma, […]

  2. […] É nessa parte que temos duas cenas memoráveis – com uma delas se tornando uma das mais lembradas de toda a carreira de Hitchcock. A primeira é quando Armstrong está sendo procurado por seu guarda-costas Gromek (Wolfgang Kieling) num museu. A sequência tinha tudo para se tornar banal (quantas perseguições nós já não vimos no cinema?), mas nas mãos de Hitchcock ficou extremamente transtornante. Nós nunca chegamos a ver Gromek no trecho, apenas ouvimos o barulho de seus passos, chegando cada vez mais perto de Armstrong… É o bastante para nos deixar aflitos, e é fácil entender o motivo: muitas vezes, nos perturbamos mais pelas coisas que não vemos, mas que sabemos que estão à espreita, nos observando. É, basicamente, o que Hitch tentou dizer com Os Pássaros. […]

  3. […] (se não o melhor) cineasta que já existiu. Além disso, ele mostrou que consegue se renovar, com Os Pássaros, por exemplo. A incongruência aqui está no fato do estilo de Hitchcock estar muitas vezes à […]

  4. Eu lembro perfeitamente do dia em que assisti Os pássaros (em 1987) e de como fiquei abismada. A influência do cinema aliado a genialidade do mestre é algo indescritível. Um filme essencial para qualquer cinéfilo (ou quem se diga cinéfilo), mesmo que não seja fã do mestre. Um exemplar perfeito de como é possível brincar e dominar as emoções do público calcado no poder da imagem. A nota só pode ser 10!

  5. […]                 Os Pássaros […]

  6. […] de que os astronautas não estão sozinhos na Lua, sem revelar demais, tal qual Hitchcock fez em Os Pássaros.  A sensação de uma catástrofe iminente é intensificada quando os personagens perdem contato […]

  7. Marina disse:

    Ótima análise.

  8. Aizekyel Angelos disse:

    Na primeira vez que assistir os pássaros do mestre Hitchcock quanto sai de casa vi um monte de pássaros rodeando a minha casa e foi então que percebi o como era poderoso o filme e que Hitchcock era o maior gênio que o cinema já conheceu.

  9. Daniel Vianna disse:

    Fim dos Tempos, de M. Night Shiamalan, seguiria essa linha?

  10. MarceloMarcelo disse:

    Tidos os comentários e o texto mostra que as pessoas não entenderam que trata-se da única obra que o diretor flertou com o surrealismo. Na verdade os pássaros são a manifestação do conflito crescente entr as três personagens principais em disputa para seremo centro da vida do protagonista. As rusgas são personificadas em pássaros, e os ataques se intensificam junto com os conflitos. Quem não entendeu isso fica raciocinando no vazio!

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