Projeto Hitchcock: Trama Macabra (1976)

27/07/2011

“Uma vez eu organizei um jantar, há muitos anos, no qual toda a comida era azul” Alfred Hitchcock

Crédito: Empire Online

Enfim, com Trama Macabra, chegamos ao fim da carreira cinematográfica do Mestre do Suspense. Isso não quer dizer, porém, que o Projeto Hitchcock tenha acabado, já que existem ainda quatro filmes do cineasta que ainda serão analisados: The Pleasure Garden, Downhill, Juno and The Paycock e Valsas de Viena, todos da sua fase britânica. Mas isso fica pra depois: o foco agora é discutir o canto do cisne de Hitchcock no cinema.

E que canto divertido foi esse! Trama Macabra, de macabra não tem nada. É uma obra bastante leve, uma marca do seu roteirista, Ernest Lehman, que já havia sido muito feliz em uma parceria anterior com Hitchcock, que resultou em Intriga Internacional. Como este filme de 1959, Trama Macabra logo se mostra como uma obra que não se deve levar muito a sério. Seu único objetivo é entreter, algo que ele consegue fazer muito bem. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Frenesi (1972)

24/07/2011

“Filme os seus assassinatos como cenas de amor, e as suas cenas de amor como assassinatosAlfred Hitchcock

Créditos: Hitchcockfans

Alfred Hitchcock descreveu “run for cover” como uma técnica na qual os cineastas, quando se vêem numa má fase, tentam resgatar seu sucesso através da reutilização de fórmulas que já haviam dado certo em filmes anteriores. Um dos melhores exemplos dessa estratégia na carreira do Mestre é com Frenesi, de 1972. Nessa época, ele estava colecionando fracasso atrás de fracasso (Cortina Rasgada teve um resultado razoável nas bilheterias, mas os críticos detestaram-no), chegando ao fundo do poço com Topázio, seu trabalho mais irregular desde Um Casal do Barulho, feito quase trinta anos antes. Então, se o que ele estava fazendo não dava certo, o que tentar? Mais um filme sobre um homem acusado de um crime que não cometeu, é claro!

A escolha parece ter dado certo, já que a obra foi sucesso de púbico e crítica, e Hitch voltou a ter uma posição de prestígio na indústria cinematográfica. Apesar de Frenesi divertir e ter todos os elementos de vários filmes de sucesso do Mestre, ele falha ao não apresentar nada de novo à sua filmografia, dando a impressão de que é um mero apanhado de ideias já vistas e revistas antes. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Topázio (1969)

21/07/2011

“O homem não vive só de assassinatos. Ele precisa de afeição, aprovação, encorajamento e, ocasionalmente, uma refeição quente” Alfred Hitchcock

Crédito: HD Mania

Eis que chegamos em 1969. Hitchcock, o consagrado Mestre do Suspense, estava desacreditado por grande parte da indústria cinematográfica, da imprensa e até das plateias. Desde Psicose que o cineasta não conseguia produzir um grande sucesso, tanto de crítica quanto de público – Os Pássaros e Marnie só passariam a ser cultuados anos depois. Acreditava-se que a forma de Hitch fazer cinema estava ultrapassada, a antiga Hollywood estava morta e outra, diferente, estava se formando. Para os chefes dos estúdios, não havia mais tanto espaço para fantasias como as que Hitch fazia – o negócio agora era apostar em obras mais realistas e que debatessem o cenário social, político e econômico da época. É dessa linha de pensamento que nascem verdadeiras obras-primas do cinema como Perdidos na Noite, Adivinhe Quem Vem Para Jantar, Easy Rider – Sem Destino, O Sol é Para Todos e Z. Este último é considerado um dos melhores thrillers políticos já feitos, e talvez possa ter influenciado Topázio, que, infelizmente, não consegue ser nem a metade do que a obra de Costa-Gavras é.

Antes de começar, o filme já estava fadado ao fracasso, já que a Universal exigiu que Hitch filmasse a sua versão do best-seller de Leon Uris, em vez de deixar o Mestre escolher a sua próxima produção. O estúdio provavelmente queria “atualizar” o Mestre, dando a ele roteiros mais verossímeis e modernos. Com a saúde mais debilitada pela idade e obrigado a tocar um projeto que não o atraía (ele odiava filmes políticos), não podemos esperar que Hitchcock fizesse grande coisa com Topázio. Mas até que ele tentou. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Cortina Rasgada (1966)

18/07/2011

Nos filmes, assassinatos são sempre muito limpos. Eu mostro o quão difícil é e  como é repugnante matar um homem” Alfred Hitchcock

Créditos: GoneMovie

Cortina Rasgada marca o começo da lenta decadência do Mestre do Suspense. Depois, de Marnie – Confissões de uma Ladra, Hitchcock ainda faria quatro filmes, incluindo este, mas que não teriam mais aquele charme das produções de antigamente, nem a mesma força narrativa/visual. Neste caso, até que o cineasta conseguiu um belo resultado final, contando uma história bem amarrada, que faz muito bom uso do mistério, do suspense e da ação. Há excelentes sequências visuais, como a hoje famosa cena do assassinato na fazenda. No entanto, o filme é totalmente equivocado no sentido de construção de personagens: os dois protagonistas são irritantes ao extremo, enquanto que os que deveriam ser os vilões acabam por ganhar pelo menos um pouco da nossa simpatia.

Esta obra é revestida de um contexto político, algo raro na carreira de Hitchcock, que não o considerava um assunto empolgante. A política só apareceu com mais destaque em seus filmes-propaganda, realizados em meio à Segunda Guerra Mundial, mas mesmo nestes, ela andava lado a lado com o suspense e o drama. Com Cortina Rasgada não é diferente, já que o cenário da Guerra Fria é utilizado apenas como pano de fundo para que as habituais intrigas e maquinações criadas pelo Mestre aconteçam. No caso, seguimos o cientista Michael Armstrong (Paul Newman) e sua assistente e noiva, Sarah Sherman (Julie Andrews) em uma viagem apenas de ida para a Berlim Oriental, atrás da Cortina de Ferro. Armstrong, após ter o seu projeto nuclear cancelado pelo governo dos Estados Unidos, deserta para o bloco comunista. Sherman, que não sabia desse plano, desaponta-se com o noivo, mas o segue mesmo assim. Mal sabia ela que Armstrong poderia ter outros interesses nessa viagem… Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Marnie, Confissões de uma Ladra (1964)

15/07/2011

“Todas as cenas de amor que começam no set continuam no camarim” Alfred Hitchcock

Crédito: Flow my Tears

A última vez em que Hitchcock havia decidido filmar um suspense com uma roupagem explicitamente psicológica foi em Quando Fala o Coração. A tentativa não deu muito certo devido ao foco exagerado nas análises psicanalíticas, o que tornou o ritmo do filme lento. Anos depois, Hitch voltaria a tratar do assunto, mas de forma reduzida, em Psicose, o seu maior sucesso até então. A conjunção de temáticas só voltaria, com força total, em Marnie, Confissões de Uma Ladra, que é certamente muito melhor que quando fala o coração. Seria mais uma obra-prima do Mestre não fossem algumas falhas que impedem o espectador de ter uma experiência plenamente satisfatória como nos seus filmes anteriores. Mesmo não sendo perfeito, Marnie, de 1964, marca o fim da fase de ouro de Hitchcock, que para mim começou uma década antes, em 1954, com Janela Indiscreta. A decadência de Hitch seria por conta da idade? Ele já contava com 65 anos no lançamento de Marnie. Eu não sei, só o que posso afirmar é que, a partir de Cortina Rasgada, o fator entretenimento, que sempre poderia se associar aos seus filmes, começou a diminuir gradativamente. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Psicose (1960)

09/07/2011

“Para mim, Psicose foi uma grande comédia. Tinha que ser” Alfred Hitchcock

ATENÇÃO! A crítica abaixo trás detalhes sobre a trama do filme! Se não quiser conhecer os segredos do filme, não continue lendo!

Crédito: Adorável Inferno

Marion Crane (Janet Leigh) é uma ladra. Ela roubou 40 mil dólares da imobiliária onde trabalha para pagar as dívidas que o seu amante, Sam (John Gavin) possui, e assim, poder finalmente se casar com ele. Mas, no caminho para a cidade onde ele morava, Marion se perde e vai parar no Motel Bates, tão sinistro quanto o seu administrador, Norman Bates (Anthony Perkins). Ela resolve fazer uma parada, comer alguma coisa, e tomar um banho…

Psicose é sem dúvida o filme mais famoso de Hitchcock, com uma de suas cenas se tornando tão icônica que é difícil encontrar quem não a tenha visto: a do assassinato no chuveiro. Muita gente ainda não o assistiu, mas todo mundo reconhece o som agudo dos violinos tocado nessa sequência, que é uma das mais famosas do cinema. Nas diversas listas de melhores filmes, feitas por sites, revistas e jornais, a obra de 1960 geralmente figura em primeiro lugar. A cena do chuveiro também costuma arrebatar a primeira posição nos rankings de cenas mais assustadoras. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Intriga Internacional (1959)

06/07/2011

“Nosso título original era ‘O Homem no Nariz de Lincoln’. Entretanto, não podíamos usá-lo. Eles também não nos deixaram atirar em pessoas no Monte Rushmore. Não se pode denegrir um monumento nacional. E é uma pena, mesmo, porque eu tinha uma tomada excelente na minha cabeça de Cary Grant se escondendo no nariz de Lincoln e tendo uma crise de espirro” Alfred Hitchcock, sobre Intriga Internacional

Intriga Internacional é mais uma tradução sem pé nem cabeça que os distribuidores brasileiros deram a um filme de Hitchcock. Fomos “agraciados” com títulos como O Marido Era o Culpado (Sabotage), Um Casal do Barulho (Mr. and Mrs. Smith) e o revelador em demasia Um Corpo que Cai (Vertigo). O título original deste filme de 1959 era North by Northwest, bem criativo no sentido de indicar o trajeto do personagem principal pelos Estados Unidos: ele começava em Nova York e terminava no famoso Monte Rushmore (aquele com os rostos de quatro ex-presidentes do país), na Dakota do Sul. A nossa tradução é meio incoerente pela tal “intriga” do título nunca se concretizar, mas não chega aos pés do roteiro do filme, que não faz sentido algum!

 O cineasta François Truffaut fez duas declarações corretas a respeito deste filme: que ele pode ser considerado o resumo da fase americana de Hitch, e que é impossível escrever uma sinopse satisfatória sobre o longa. Expliquemos: Intriga Internacional é mais um filme em que um homem inocente é perseguido por um crime que não cometeu. Mas, se neste aspecto ele reúne diversos elementos hitchcockianos, ele se afasta dos outros por seu ritmo absurdamente rápido, cenas de ação absurdamente irreais e passagens absurdamente farsescas. Ou seja, o filme todo é um absurdo… mas a diferença aqui é que Hitchcock quer que o filme seja assim, por isso é difícil resumi-lo. Podemos nos contentar com uma descrição mínima: Roger Thornhill (Cary Grant, que já havia sido dirigido pelo Mestre em três obras – Suspeita, Interlúdio e Ladrão de Casaca), um publicitário bem-sucedido, é confundido por um bando de criminosos por um agente do governo, dando início a uma perseguição que vai atingir seu famoso clímax entre os bustos dos presidentes americanos, no Monte Rushmore. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Um Corpo que Cai (1958)

03/07/2011

“Para fazer um grande filme, você precisa de três coisas: o roteiro, o roteiro e o roteiro” Alfred Hitchcock

Crédito: Cinema na Mangueirosa

Esqueça Quando Fala o Coração, com suas terminologias e análises psicanalistas. Desconsidere o “microcosmos de guerra” de Um Barco e Nove Destinos. Deixe de lado os conflitos intercalasses de The Skin Game: Um Corpo que Cai é o mais complexo filme de Hitchcock, tratando de uma infinidade de temas, mas sempre destacando a condição humana e a emoção inerente a ela. Sim, existe suspense neste filme, mas o que parece ser importante aqui são as relações entre as pessoas, que nunca pareceram tão verdadeiras e humanas num filme do Mestre. Por saber juntar a sua fórmula tradicional a inovações na narrativa, Um Corpo que Cai é mais uma obra-prima do cineasta.

A história parece banal quando é resumida em uma sinopse – quem não a conhece pode muito bem duvidar de estarmos falando de um dos maiores clássicos do cinema. Ela começa com uma perseguição policial, que culmina com a fuga do bandido, a morte de um oficial e o afastamento de outro, o detetive John ‘Scotty’ Ferguson (James Stewart, em sua última colaboração com Hitch – antes vieram Festim Diabólico, Janela Indiscreta e O Homem que Sabia Demais), por ele descobrir que tem acrofobia, ou medo de altura. Entretanto, ele aceita um último trabalho de detetive: seguir a esposa de um amigo seu, Madeleine (Kim Novak). O homem desconfia que ela esteja louca, e pede a Scotty que descubra tudo o que ela faz quando passa as tardes fora de casa. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: O Homem Errado (1957)

30/06/2011
“Quando um ator quer discutir o seu personagem comigo, eu digo: ‘Está no roteiro’. Se ele diz, ‘Mas qual é a minha motivação?’, eu respondo, ‘Seu salário’ ” Alfred Hitchcock

Créditos: A Fan Apart

O Homem Errado sempre se destacou da filmografia de Hitchcock como “o filme baseado em uma história verdadeira”. Realmente, o fato da maioria dos acontecimentos mostrados na obra terem acontecido de verdade foi o aspecto que o cineasta mais levou em conta na hora de filmá-lo, mas ele não deveria nunca se limitar a essa descrição. Afinal, O Homem Errado funciona tão bem como mais um suspense de Hitch que pouco importa se o filme é baseado em fatos ou não.

O homem do título é ‘Manny’ Balestrero (Henry Fonda), um músico de um dos clubes mais sofisticados de Nova York, o Stork Club. Ele vive uma vidinha pacata com sua esposa, Rose (Vera Miles, que faria ainda Psicose com Hitchcock) e seus dois filhos, até que, quando vai pedir dinheiro a uma agência de seguros para pagar um tratamento dentário de sua mulher, é confundido com um criminoso por uma atendente. Incapaz de provar sua inocência, ele é preso, o que vai ter graves consequências para ele mesmo e para sua família. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: O Homem que Sabia Demais (1956)

27/06/2011

“Auto-plagiar-se é estilo” Alfred Hitchcock

Crédito: Film Forum

Em 1934, um filme cuja trama girava em torno de sequestros e espionagem foi o responsável por revitalizar a carreira de um cineasta que havia passado por maus momentos em seu estúdio anterior. O filme era O Homem que Sabia Demais. O diretor, Alfred Hitchcock. 22 anos depois, o diretor, já chamado de Mestre do Suspense, resolveu refilmar essa obra que foi tão importante para sua filmografia. Embora o remake não tenha sido tão decisivo na sua carreira como foi o original (afinal, nessa época, Hitch já havia atingido graus de genialidade como diretor e estava, portanto, com a sua carreira consolidada), ele é bastante superior ao seu antecessor. Como o próprio Hitchcock classificou, O Homem que Sabia Demais de 56 é fruto de um profissional, enquanto que o de 34 foi feito por um amador.

 O conflito principal dessa produção permanece quase o mesmo em relação ao primeiro longa: trata-se de um casal que tem seu filho sequestrado durante férias no exterior e que, sem poder recorrer à polícia, precisam encontrá-lo sozinhos. Fora isso, existem várias diferenças. Os britânicos são substituídos por um casal americano: James Stewart, em seu terceiro filme com Hitch (fez os soberbos Festim Diabólico e Janela Indiscreta) e Doris Day, como Ben e Jo McKenna, respectivamente. Em vez da Suíça, eles viajam com seu filho (e não filha, como no original) Hank (Christopher Olsen) para o Marrocos, onde um agente secreto (Daniel Gélin) confidencia um segredo a Hank antes de morrer. Para que eles fiquem calados, uma organização de assassinos sequestra Hank. Sem saída, o casal é obrigado a viajar para a Inglaterra e tentar resgatá-lo. Apesar das diferenças, o famoso clímax nas duas produções acontecem no mesmo local: o Royal Albert Hall. Continue lendo »