Com o pé direito: Marcelo Galvão fala sobre seu longa de estreia, Quarta B

25/08/2011

Crédito: Salinha CineClube

Quarta B foi o primeiro filme do cineasta Marcelo Galvão, mas não foi o seu primeiro projeto. Na verdade, ele pretendia estrear na direção com Fábulas, um filme orçado em 6 milhões de reais, mas que não encontrou investidores. Então, ele resolveu criar um longa-metragem que “coubesse no seu bolso”, como ele contou no Workshop de Produção de Roteiros para Cinema, que aconteceu no SESC de Bauru (SP), no último dia 23.

 À lá 12 Homens e Uma Sentença, de Sidney Lumet, o filme se passa inteiramente em uma sala. Só que esta não é um local para deliberação de jurados, e sim, a sala de aula que dá nome ao filme. É lá que é encontrado um tijolo de maconha, e os pais dos alunos são chamados para, juntamente com a professora, o faxineiro que encontrou a droga e o diretor, resolver o mistério.

Quarta B é bem interessante por fugir da estrutura narrativa convencional. O filme começa com os personagens discutindo o paradeiro da maconha (e agredindo uns aos outros no processo), mas logo ele dá a sua primeira de várias reviravoltas: o grupo resolve fumar a maconha para chegar a alguma (qualquer) conclusão. A partir daí, passamos a conhecer cada vez melhor os personagens (cada um melhor que o outro, vale notar. O destaque vai para a idosa e o motoboy), além de termos a chance de refletir sobre diversos temas que estão na ordem do dia para a sociedade brasileira. A legalização da maconha é apenas um deles: temos também o preconceito (nas suas diversas formas), a decadência financeira, o homossexualismo, a ausência dos pais na vida dos filhos, dentre outros, desfilando pela tela, de maneira sempre pungente, inteligente e muitas vezes engraçadíssima. Aliás, é o humor sagaz que deixa a narrativa de Quarta B tão envolvente: faz rir e faz pensar ao mesmo tempo, o que é dificílimo de fazer.

Mas depois o filme vai ganhando cada vez um caráter psicodélico: segundo o próprio diretor, a intenção foi fazer o filme se parecer com a “onda” proporcionada pela maconha. A história, que caminhava linearmente, volta no tempo, o conflito ganha uma solução para logo depois começar do zero, o debate é abalado por acontecimentos externos… É uma mudança de tom muito brusca, podendo chocar os espectadores mais convencionais, mas é uma boa surpresa. Galvão não tem medo de criar, de inventar, de trazer algo de novo para o cinema nacional. O filme passa longe de ser uma obra-prima (a câmera hand-held se torna cansativa com seus tremeliques), mas se consegue divertir, surpreender, incentivar a reflexão E contribuir  para a evolução da arte cinematográfica, só o que se pode dizer é que Marcelo Galvão começou a sua carreira de diretor com o pé direito. Posteriormente, ele filmaria Bellini e o Demônio, Rinha e o ainda inédito Colegas.

Veja abaixo uma entrevista exclusiva com o cineasta, que revelou detalhes da obra, assim como alguns dos seus gostos pessoais: Continue lendo »

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Super 8 (Dir: J. J. Abrams)

15/08/2011

Crédito: Estás a me irritar

J. J. Abrams declarou em uma entrevista que o objetivo de Super 8 era fazer uma homenagem a filmes que o cineasta Steven Spielberg havia dirigido e produzido nos anos 70 e 80, como Contatos Imediatos de Terceiro Grau, E.T. – O Extraterrestre e Os Goonies. Com isso, o diretor quis dizer que ele queria dar a vida a uma trama que fosse leve, atrativa e emocionante, algo que Spielberg conseguia fazer com maestria no começo da sua carreira (a obra do diretor, principalmente a partir dos anos 2000, ficou mais madura e pesada, mas sem perder a qualidade).

Depois de ter conferido Super 8, dá pra afirmar que, sem qualquer dúvida, esse objetivo foi atingido. A ficção científica é mesmo uma mistura dos três filmes acima mencionados, mas que tem a sua própria unidade. O longa consegue reavivar aquele clima de inocência e de euforia dos antigos filmes de Spielberg, além de resgatar uma proposta que está cada vez mais sendo negligenciada pela Hollywood moderna: a de que o cinema-pipoca, deve pregar, acima de tudo, pelo entretenimento. Hoje, os filmes comerciais dos Estados Unidos ou parecem querer ser sempre mais do que são, estragando o fator diversão, ou parecem ter saído de uma linha de produção, equipados à exaustão com efeitos especiais, atores famosos, lugares comuns e personagens estereotipados, como se isso fosse o que realmente importasse. Infelizmente, a Hollywood de hoje está passando por uma crise de personalidade, entregando produtos cada vez menos relevantes no cenário cinematográfico mundial por serem meros instrumentos para o lucro. Eu sei muito bem que o que move qualquer indústria é o dinheiro, e com a cinematográfica não é diferente. Mas há cada vez mais exemplos de filmes que conseguem apenas ser divertidos. Continue lendo »


Meia-Noite em Paris (Dir: Woody Allen)

12/08/2011

Crédito: Bastidores

A Torre Eiffel. A Catedral de Notre-Dame. O Arco do Trinfo. As charmosas ruelas. Enfim, Paris. É com essas imagens que Woody Allen abre o seu Meia-Noite em Paris. Mas engana-se quem pensa que elas estão ali apenas como um mero cartão-postal da cidade. Na verdade, essa rápida sequência resume todo o conflito do filme, que é o confronto do passado com o presente. Isso porque a Paris que vemos no começo do filme não é a cidade-luz, a cidade do amor clássica, que todos nós conhecemos (nem que seja pelo cinema…), e sim, uma Paris sem graça, chuvosa, quase deserta. Será que ela perdeu o encanto na atualidade? Nossos tempos modernos, com tanta poluição, comunicação virtual ao invés de cara a cara, violência, corrupção, terrorismo, inviabilizaram toda e qualquer beleza que ainda havia neste mundo?

Talvez este pensamento seja um tanto dramático, mas é assim que às vezes nós nos sentimos quando acompanhamos o último escândalo ou polêmica. E é assim que se sente o personagem principal da história, o roteirista Gil (Owen Wilson, que cada vez mais está mostrando um ótimo ator). Ele é apaixonado por Paris, mas não a dos dias atuais, e sim a dos anos 20. A Paris em que viviam gênios das artes como Ernest Hemingway, Pablo Picasso e Cole Porter. Gil acredita que, se vivesse nessa época, conseguiria mais inspiração para finalmente escrever um romance. Mas a sua nostalgia não é compartilhada pelos seus companheiros de viagem: sua noiva Inez (Rachel McAdams) e os irritantes e desagradáveis pais dela, John (Kurt Fuller) e Helen (Mimi Kennedy). Sem apoio ou perspectiva, Gil, de uma hora para outra, ganha uma chance que qualquer um mataria para conseguir: a de voltar no tempo e conhecer os seus adorados ídolos da Paris dos anos 20. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Post de encerramento

04/08/2011

“Arte é emoção” Alfred Hitchcock

Crédito: Zuma World

Enfim, mais de seis meses depois do seu início, o Projeto Hitchcock chega ao fim. Durante esse trajeto, 52 longas-metragens foram assistidos e analisados praticamente na sequência em que foram feitos. Mas o resultado final foi mais do que uma série de críticas. A sensação que fica ao final dessa tarefa monumental é de que eu conheço melhor o cinema, as suas técnicas e especificidades, e especialmente, os filmes do nosso querido Mestre do Suspense.

Antes desse projeto, eu o considerava o meu diretor preferido, mas, agora que ele acabou, posso dizer que ele se tornou muito mais do que isso. Alfred Hitchcock conhecia o cinema como ninguém, e depois de ver toda a sua filmografia (ou quase toda, já que The Mountain Eagle continua desaparecido…), posso dizer que ele fez aumentar ainda mais o meu amor e o meu fascínio pelo cinema. De diretor preferido, ele passou a ser meu Mestre, o meu guia cinematográfico, aquele que eu sempre vou me voltar quando quiser assistir a um filme de verdade. As suas imagens e e as suas histórias espetaculares nunca vão sair da minha cabeça até o fim dos meus dias, tamanha a sua força e o talento do seu idealizador. Por tudo o que você me proporcionou nesses meses mágicos, aqui vai o meu muito obrigado, Mestre!

Mas, esperem! Ainda não acabou! Eu não poderia encerrar o Projeto Hitchcock sem falar um pouco mais deste que, para mim, é o maior cineasta que o mundo já viu. E, claro, um pouco mais sobre a minha experiência de escrever durante vários meses sobre as suas obras. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Downhill (1927)

04/08/2011

“Medo não é tão difícil de se entender. Afinal de contas, nós não tínhamos tantos medos quando éramos crianças? Nada mudou desde que a Chapeuzinho Vermelho encontrou o Lobo Mau. O que nos assusta hoje é exatamente o mesmo tipo de coisa que nos assustava ontem. É só um lobo diferente. Esse complexo de susto está enraizado em todo indivíduo” Alfred Hitchcock

Crédito: Laboratorio Audiovisivi

O Inquilino, de 1927, mostrou que a parceria entre o jovem Alfred Hitchcock e o ator Ivor Novello havia dado muito certo. O filme havia sido um grande êxito de crítica e público, o primeiro na carreira do cineasta. Por isso, logo depois a dupla se uniu novamente para filmar Downhill, baseado numa peça do próprio Novello e de Constance Collier (a senhora Atwater de Festim Diabólico). Só que, dessa vez, o sucesso não veio. Talvez as pessoas estivessem esperando um novo thriller, e se depararam com um melodrama. Talvez elas não tenham apreciado o tom pessimista da obra. Tanto tempo depois do lançamento do filme, é impossível descobrir o que o público não aprovou em Downhill. Até porque o filme não é ruim. Pode ser pouco original e confuso às vezes, mas ruim não é.

Novello encarna mais uma vez o papel de um homem acusado de algo que não cometeu. O livro Hitchcock Truffaut Entrevistas informa que o protagonista, o estudante Roddy, furtou alguma coisa de uma loja nos arredores da sua escola. Encontrei essa descrição em outras fontes, mas o que realmente deu a entender é que a moça que cuidava da loja acusou Roddy de tê-la engravidado, quando, na verdade, o pai é o colega de quarto do estudante, Tim (Robin Irvine, que voltaria a atuar para Hitchcock um ano depois, no pavoroso Mulher Pública). A amizade e o afeto existente entre os dois impede que Roddy diga a verdade, mas seu silêncio vai fazer com que o estudante decaia cada vez mais (daí o título do filme, Downhill, que significa algo como “declínio”). Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Valsas de Viena (1934)

02/08/2011

“Eu não entendo o porquê de termos que experimentar com filme. Acho que tudo deveria ser feito no papel. Um músico, um compositor tem que fazer isso. Ele escreve um monte de pontos e uma música linda é tocada. E eu acho que deveriam ensinar os estudantes a visualizar. É a única coisa que falta. A única coisa que o estudante tem que aprender é que existe um retângulo – um retângulo branco em um cinema – e que ele precisa ser preenchido” Alfred Hitchcock

Crédito: Torrent Butler

Valsas de Viena é um dos filmes mais injustiçados da filmografia de Hitchcock. O próprio Mestre o considerava um dos piores de sua carreira, e o filme, atualmente, está praticamente esquecido pelo público. Ele está longe de ser uma obra-prima, mas é um bastante leve e divertido. Só não espere um típico suspense de Hitchcock, porque Valsas de Viena é totalmente o contrário: um musical.

Não é um musical no sentido clássico do termo, no qual os personagens começam a cantar repentinamente, em qualquer situação. Isso, na época, seria impossível, pois todo o som era gravado no próprio estúdio, e o esforço teria que ser hercúleo para gravar trilha sonora e voz de uma só vez de maneira harmoniosa. Além do mais, ainda havia a apreensão por parte dos estúdios que os espectadores não aceitariam ouvir uma música sem nenhuma fonte visível. Valsas de Viena tem um pano de fundo musical, sendo esta a justificativa para as músicas serem interpretadas. Continue lendo »


Projeto Hitchcock: Juno and the Paycock (1930)

31/07/2011

“A vingança é doce e não engorda” Alfred Hitchcock

Crédito: Movie Mail

Uma das maiores críticas de Hitchcock às produções cinematográficas de sua época é que elas pareciam “filmes com pessoas falando”. Ele queria dizer que essas obras não tiram vantagem das possibilidades do cinema, investindo mais em diálogos do que em imagens propriamente ditas. O que é curioso é que o próprio Hitch, na sua fase britânica, fez pelo menos dois “filmes com pessoas falando”. Um deles é The Skin Game, um filme subestimado por crítica e público que, na verdade, estava bem frente à sua época. No entanto, abusava de diálogos e Hitch admitiu que não conseguiu transformar a peça de teatro original em imagens fílmicas. O outro é Juno and the Paycock, que também é calcada nas conversas entre os seus personagens, mas, infelizmente, não possui a qualidade que o roteiro de The Skin Game tinha.

O mote principal é uma herança inesperada que é deixada para uma família pobre, na Irlanda dos anos 20. O dinheiro, que deveria ajudá-los a escapar das suas condições miseráveis, acaba por destruí-los. O longa seria bem mais interessante de se assistir se esse conflito fosse melhor explorado: o problema é que ele está diluído pela uma hora e meia de duração do filme, só se tornando o foco narrativo nos trinta minutos finais. Continue lendo »