A Árvore da Vida (Dir: Terrence Malick)

Atuação de Brad Pitt é um dos grandes destaques de A Árvore da Vida

Quando havia acabado de assistir A Árvore da Vida nos cinemas, aconteceu algo que eu nunca havia presenciado até então: pessoas da plateia reclamando em voz alta que odiaram o filme e/ ou não o entenderam. Esse fato, somado com as mensagens de repúdio sobre o filme postadas no fórum do IMDB (Internet Movie Database), serve para mostrar que o filme de Terrence Malick (de Além da Linha Vermelha e O Novo Mundo) não é para todos os gostos. É uma obra que vai exigir muita reflexão e concentração da parte dos espectadores, o que não significa que ela seja insuportável. Na verdade, para quem aprecia cinema feito com qualidade vai se deliciar com a estética criada por Malick, sem dúvida uma das mais inventivas dos últimos anos.

A árvore do título, primeiramente, se refere a uma muda plantada pelo senhor O’Brien (Brad Pitt) e seus filhos, ainda muito pequenos. A partir daí, o filme inteiro vai girar em torno da relação tensa entre o pai e os três filhos. Um deles, Jack (Hunter McCracken na infância e Sean Penn na idade adulta), um menino inocente e brincalhão que, pouco a pouco, passa a se desencantar com a vida. Ao chegar à maturidade, ele se vê sem saída, acuado num mundo que não o acolheu.

De todas as temáticas abordadas no longa (e são muitas), as escolhas feitas por cada um de nós e as suas consequências parecem se sobressair (digo “parece” pois é impossível não fazer uso do subjetivismo na análise de A Árvore da Vida – mais sobre isso à frente). É crucial o monólogo da senhora O’Brien (Jessica Chastain), a respeito da graça e da natureza, logo no começo do longa. A primeira não tenta agradar a si mesma, se resignando quando é maltratada; já a segunda só deseja o seu próprio prazer, manipulando outros para chegar ao seu objetivo. Então, qual caminho seguir? A resposta não é tão óbvia quanto se imagina (nada neste filme o é), já que a graça leva uma vida de sofrimento, enquanto que a natureza segue contente, soberana.

Aliás, a natureza ocupa um grande papel em A Árvore da Vida. Em determinado momento, a história, que vai sendo contada de maneira não-linear, quase labiríntica, é interrompida por completo, cedendo seu lugar a um longo segmento de imagens espaciais de todo o Universo, do Sistema Solar e, finalmente, da Terra e dos seus diferentes períodos. Malick nos mostra cenas com lava e vulcões (o início do mundo?) e depois uma curta cena com dinossauros. É o momento mais ousado do cineasta, e, por isso mesmo, um dos mais impactantes para a plateia, que está ou admirada com tanta beleza e lirismo ou está praguejando a falta de nexo da película.

Mas, então, o que esse corte imenso de tempo e lugar que dizer? Respondo com outra pergunta, que deve decepcionar quem estiver lendo: o seu significado é mesmo importante? Para mim, a intenção de Malick é fazer o seu espectador sair do marasmo e pensar um pouco pra variar, não sendo relevante se tal meditação está de acordo com o que foi inicialmente intencionado pelo cineasta. Lendo outras críticas do filme, percebi que muitas entenderam essa parte como sendo uma mostra do quanto o homem é insignificante perante a natureza. Já eu não compartilho de tal visão: há, sim, uma relação entre a natureza retratada e o núcleo humano do longa, mas não uma caracterizada pela dominância, e sim, pela complementaridade. A natureza tem seu próprio fluxo, seu próprio ritmo. Não pode ser interrompida, está sempre indo para a frente. Quanto ao homem, ele tenta seguir a mesma trajetória, porém não consegue. Seus problemas materiais, conflitos internos, medos e neuras impedem-no de alcançar a estabilidade natural. A natureza dá a impressão de estar ali como um modelo a ser seguido. Entretanto, não é a natureza que só liga para si mesma? Deve-se seguir os seus conselhos, ou depreender um caminho próprio? A graça desses conflitos é que eles não tem uma solução aparente: ela cabe apenas à plateia. Provavelmente, o fato de que uma parte dela não ter apreciado o filme é que esta não está acostumada com filmes mais densos e provocantes.

Não é à toa que Malick está sendo comparado, a torto e a direito, com o grande mestre Stanley Kubrick. A sua sequência com os planetas lembra muito os belíssimos planos de 2001 – Uma Odisseia no Espaço. Essa semelhança pode ser explicada pelos efeitos terem sido desenvolvidos por Douglas Trumbull, que esteve envolvido no clássico de Kubrick. O resultado é esplêndido e realista, tendo-se em conta que são usados efeitos óticos, e não computadorizados. A comparação entre os dois também se justifica por A Árvore da Vida não fazer muito sentido para quem assiste, assim como 2001 é até hoje pouco compreendido em sua extensão. Pode-se dizer que ambas são “obras abertas”, cujos significados devem ser preenchidos pelos espectadores.

Mas nada lembra mais o cineasta de 2001 em A Árvore da Vida do que o apuro técnico na captura da imagem. Kubrick era um perfeccionista: filmava certas cenas centenas de vezes se fosse necessário, de modo que o resultado saísse impecável. Não sei se este é o método utilizado por Malick, mas o fato é que cada cena do seu filme te deixa sem fôlego de tão bonita. Já falamos da sequência espacial, mas as cenas que lidam com o cotidiano da família são tão ou até mais belas do que aquela, pelo fato de mostrarem novidades no trivial. Seja por meio de uma fotografia viva e pulsante (o uso da luz solar é frequente) ou fria e melacólica (nas cenas com Sean Penn), seja pela trilha sonora de Alexandre Desplat (que emociona ao se casar perfeitamente com as imagens), seja pela movimentação incomum da câmera, cada cena de A Árvore da Vida parece um quadro, bem ao estilo dos filmes de Kubrick.

Quanto às atuações, não há concorrência: o filme é de Brad Pitt. A falta de diálogos não é um empecilho para o ator, que consegue expressar brilhantemente uma gama de emoções apenas com o rosto e expressão corporal. Um ator medíocre poderia fazer do Sr. O’Brien um vilão: Pitt o torna humano, falho e incompreendido. Se ele não for indicado ao Oscar ano que vem, será uma grande injustiça. Jessica Chastain também faz um bom trabalho, principalmente nas cenas iniciais, quando uma tragédia se abate sobre sua família. O único revés da fita é a quase ausência de Sean Penn, cuja participação não dura mais do que dez minutos (e o filme tem mais de duas horas!). Ele foi muito mal aproveitado, e o próprio ator expressou publicamente sua indignação. Penn alega que o filme no papel fazia todo o sentido, mas, quando se viu na tela, ele não compreendeu o que o seu personagem estava fazendo na história. Realmente, apesar de ter uma certa importância (ao mostrar a decepção do adulto em relação ao mundo), o personagem de Penn parece deslocado da trama.

Voltando à reflexão do começo, o título pode se referir à árvore plantada pelos O’Brien, mas, num nível metafórico, ela guarda relações com o próprio homem. Como a árvore que cresce, ramifica-se e dá frutos, o ser humano também precisa evoluir e encontrar o seu destino, algo para se viver, ou acabará amargurado como Jack. E, tal qual as inúmeras galhadas de uma grande árvore, também o filme apresenta inúmeras maneiras e caminhos para se seguir. Você pode vê-lo como um filme intragável, impossível de se entender, ou pode dar uma chance a ele e passar por uma experiência cinematográfica única. Ou pode entender A Árvore da Vida do seu próprio jeito: o importante é aproveitar algo – qualquer coisa – da obra.

FICHA TÉCNICA
 
Título original: The Tree of Life
Ano de lançamento: 2011
Direção: Terrence Malick
Produção: Dede Gardner, Sarah Green, Grant Hill, Brad Pitt
Roteiro: Terrence Malick
Duração: 139 minutos
Elenco: Brad Pitt (Sr. O’Brien), Jessica Chastain (Sra. O’Brien), Sean Penn (Jack – idade adulta), Hunter McCracken(Jovem Jack)
 
Nota: 9.5
Anúncios

5 Responses to A Árvore da Vida (Dir: Terrence Malick)

  1. Um espetáculo contemplativo e sensorial. Um dos mais belos do ano.

    http://cinelupinha.blogspot.com/

  2. Antônio disse:

    Esse é o tipo de filme a que se deve assistir de novo, de novo. É como se tivéssemos fazendo parte, ir assimilando, sentindo-o. É o que acontece como os grandes livros que tenho sempre de reler.
    Antônio

  3. Alda Lúcia da Silva Valadão disse:

    Concordo com Antônio: é como um bom livro que a gente lê, relê e lê novamente. Não é fácil compreender o filme de início, mas é maravilhoso e deve ser assistido sempre e sempre.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: