Planeta dos Macacos – A Origem (Dir: Rupert Wyatt)

Ceasar (Andy Serkis) no clímax de Planeta dos Macacos - A Origem

O que sempre me atraiu na cinessérie O Planeta dos Macacos foi a mistura até hoje pouco trabalhada de ficção científica com a crítica política / social. Ela foi muito bem-sucedida no sentido de agradar a gregos e troianos: os que desejavam apenas entretenimento se surpreenderam com o tenso conflito entre macacos e homens; os que desejam uma reflexão mais aprofundada gostaram do debate sobre os perigos do poder e da ganância do homem, assim como das alegorias referentes à discriminação, seja ela racial ou de classes.

Não é essa a abordagem do novo reboot (a palavra remake está sendo evitada por Hollywood – ganhou um tom pejorativo) da franquia, intitulado de Planeta dos Macacos: A Origem. O longa do diretor Rupert Wyatt aposta numa visão ambientalista, focando nos maus-tratos a animais e no sofrimento destes. A obra como um todo não chega a ser brilhante como o filme original da cinessérie, de 1968, mas mesmo assim funciona como um bom divertimento para o fim-de-semana.

Apesar de um elenco encabeçado por James Franco (127 Horas) e Freida Pinto (Quem Quer ser um Milionário?), o protagonista do longa é mesmo o chimpanzé Ceasar, interpretado por Andry Serkis, que se especializou em personagens digitais, como o Gollum, da trilogia O Senhor dos Anéis e King Kong, do filme homônimo de 2005. Apesar do subtítulo do filme, pouco importa saber “a origem” da inteligência dos macacos e da derrocada da raça humana. O que vale mesmo é acompanhar a dura jornada do símio, desde a morte de sua mãe num laboratório genético até ao ponto em que ele se torna o líder dos macacos.

Mesmo tendo herdado a inteligência de sua mãe (causada por uma droga), Ceasar é, desde o primeiro momento, um azarão. Acolhido pelo cientista Will (Franco), ele se vê preso dentro de uma casa que, embora grande, não é o ambiente ideal para um macaco. Suas eventuais escapulidas só resultam em problemas. Quando Will o leva para passear em uma mata nos arredores de Los Angeles, Ceasar precisa usar uma coleira. Ao avistar um cão, pergunta, por linguagem de sinais, se ele é um bicho de estimação para Will. Apesar do cientista negar a afirmação, sabemos a resposta para essa pergunta.  Um acidente faz com que ele seja realocado para uma espécie de “prisão” para macacos, um local onde ele vai comer o pão que o diabo amassou graças a um guarda mau-caráter (Tom Felton).

Enfim, a trajetória de Ceasar é tão sofrida que nos pegamos torcendo por ele e não pelos humanos. Sejam eles tiranos ou inescrupulosos, sejam eles bem-intencionados, nenhum personagem que tenha o telencéfalo altamente desenvolvido e polegares opositores parece entender que o chimpanzé quer apenas liberdade e dignidade. Toda essa jornada é construída de maneira bem natural e ritmada por Wyatt, que leva seu tempo para desenvolver de maneira satisfatória todos os personagens relevantes. Desse jeito, conseguimos nos identificar com Ceasar e torcer pelo seu triunfo. Depois desse trabalho preparatório, quando a revolução dos macacos finalmente começa, ela já possui um significado bastante caro para o espectador, que vai acompanhar com extrema atenção todas as suas etapas.

É muito gratificante assistir a um filme comercial cuja história é bem contada, sem depender execessivamente de cenas de ação ou efeitos especiais, pra variar. Lógico que esses dois elementos abundam em Planeta dos Macacos – A Origem, principalmente na sua segunda parte, mas eles estão sempre a serviço da história, e não apenas como um mero chamativo para levar as pessoas ao cinema.

Podemos perceber isso no cuidado que a equipe de efeitos visuais tratou os animais do filme. No máximo, devem haver uma ou duas cenas em que macacos de verdade são usadas. Nas outras, fica óbvio o uso de computação gráfica. Apesar da nossa tecnologia atual ainda não alcançar um realismo absoluto, ela já tem o poder de criar seres extremamente complexos. Por exemplo, as expressões faciais e os olhos de Ceasar (e, ocasionalmente, de um ou outro macaco no longa) são capazes de expressar uma gama de emoções sem tornar a cena ridícula. Quando ele está feliz, acredita-se na sua felicidade; quando está raivoso, isso fica claro para quem está assistindo. O modo como os símios se movimentam também parece bem natural.

Já a ação vai aparecendo aos poucos: primeiramente em episódios isolados para só depois tomar conta da trama. O clímax surpreende pela simplicidade (a velha história de ir do ponto A ao ponto B), mas tem sequências estarrecedoras, como um gorila saltando da Ponte Golden Gate (acho que todos os filmes que se passam em São Francisco a mencionam uma hora ou outra) e o uso de um ônibus como escudo. Assim como a sua fonte de inspiração de 1968, Planeta dos Macacos – A Origem não decepciona aqueles que gostam do bom e velho cinema-pipoca.

A obra de Rupert Wyatt cumpre muito bem o seu papel, de divertir por duas horas com uma narrativa de qualidade. Quem se lembra com carinho de Charlton Heston insultando macacos “malditos e sujos” no filme original deve aprovar a nova releitura; quem nunca havia ouvido falar da dominação símia antes, também.

FICHA TÉCNICA
 
Título original: Rise of the Planet of the Apes
Ano de lançamento: 2011
Direção: Rupert Wyatt
Produção: Peter Chernin, Dylan Clark, Rick Jaffa, Amanda Silver
Roteiro: Rick Jaffa e Amanda Silver, baseados na obra de Pierre Boulle
Duração: 105 minutos
Elenco: Andy Serkis (Ceasar), James Franco (Will), Freida Pinto (Caroline), John Lighthow (Charles), Tom Felton (Dodge)
 
 Nota: 7.0
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3 Responses to Planeta dos Macacos – A Origem (Dir: Rupert Wyatt)

  1. Não sei não, mas tenho a impressão que não vou gostar tanto assim. Ainda me irrita muito essa mania atual hollywoodiana de “reinventar” o que deu certo. Sim, eu sei, não é um remake ou uma sequência ou um prequel, mas… dá pra colocar a mente para funcionar e criar algo realmente novo? Acho que não, pelo jeito!

    • Bruno Piola disse:

      Oi Ana!
      É como dizem, deveriam fazer remakes dos filmes ruins, não dos bons. Revi O Planeta dos Macacos ontem, e confirmei que se trata de uma obra-prima. Esse, se não é pra tanto, pelo menos não fez feio. É melhor do que muitos remakes que vemos por aí, não?
      Obrigado pelo comentário!

  2. tcc sem drama disse:

    Irei criar abeirado aberto bem como adorei a orientação condoimento curso
    de análise, continuamente tive qualquer dificuldade perante estudo com detalhe
    de estudos. http://epn.tice.ac-martinique.fr/ecogest/aide/?a%5B%5D=%3Ca%20href%3Dhttp%3A%2F%2Fwww.oqueeisso.blog.br%2Ftcc-sem-dramas%2F%3ETcc%20sem%20drama%3C%2Fa%3E

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