Com o pé direito: Marcelo Galvão fala sobre seu longa de estreia, Quarta B

Crédito: Salinha CineClube

Quarta B foi o primeiro filme do cineasta Marcelo Galvão, mas não foi o seu primeiro projeto. Na verdade, ele pretendia estrear na direção com Fábulas, um filme orçado em 6 milhões de reais, mas que não encontrou investidores. Então, ele resolveu criar um longa-metragem que “coubesse no seu bolso”, como ele contou no Workshop de Produção de Roteiros para Cinema, que aconteceu no SESC de Bauru (SP), no último dia 23.

 À lá 12 Homens e Uma Sentença, de Sidney Lumet, o filme se passa inteiramente em uma sala. Só que esta não é um local para deliberação de jurados, e sim, a sala de aula que dá nome ao filme. É lá que é encontrado um tijolo de maconha, e os pais dos alunos são chamados para, juntamente com a professora, o faxineiro que encontrou a droga e o diretor, resolver o mistério.

Quarta B é bem interessante por fugir da estrutura narrativa convencional. O filme começa com os personagens discutindo o paradeiro da maconha (e agredindo uns aos outros no processo), mas logo ele dá a sua primeira de várias reviravoltas: o grupo resolve fumar a maconha para chegar a alguma (qualquer) conclusão. A partir daí, passamos a conhecer cada vez melhor os personagens (cada um melhor que o outro, vale notar. O destaque vai para a idosa e o motoboy), além de termos a chance de refletir sobre diversos temas que estão na ordem do dia para a sociedade brasileira. A legalização da maconha é apenas um deles: temos também o preconceito (nas suas diversas formas), a decadência financeira, o homossexualismo, a ausência dos pais na vida dos filhos, dentre outros, desfilando pela tela, de maneira sempre pungente, inteligente e muitas vezes engraçadíssima. Aliás, é o humor sagaz que deixa a narrativa de Quarta B tão envolvente: faz rir e faz pensar ao mesmo tempo, o que é dificílimo de fazer.

Mas depois o filme vai ganhando cada vez um caráter psicodélico: segundo o próprio diretor, a intenção foi fazer o filme se parecer com a “onda” proporcionada pela maconha. A história, que caminhava linearmente, volta no tempo, o conflito ganha uma solução para logo depois começar do zero, o debate é abalado por acontecimentos externos… É uma mudança de tom muito brusca, podendo chocar os espectadores mais convencionais, mas é uma boa surpresa. Galvão não tem medo de criar, de inventar, de trazer algo de novo para o cinema nacional. O filme passa longe de ser uma obra-prima (a câmera hand-held se torna cansativa com seus tremeliques), mas se consegue divertir, surpreender, incentivar a reflexão E contribuir  para a evolução da arte cinematográfica, só o que se pode dizer é que Marcelo Galvão começou a sua carreira de diretor com o pé direito. Posteriormente, ele filmaria Bellini e o Demônio, Rinha e o ainda inédito Colegas.

Veja abaixo uma entrevista exclusiva com o cineasta, que revelou detalhes da obra, assim como alguns dos seus gostos pessoais:

 

Crédito: Confraria de Cinema

Bruno Piola: Quarta B foi filmado exclusivamente com câmera hand-held, que geralmente é usado no cinema para atingir tons documentais ou gravar cenas de ação, o que não é bem o caso de Quarta B. Qual foi o motivo por trás dessa escolha de filmagem?

 Marcelo Galvão: Eu segui muito a linha do Lars Von Trier. Ele viabiliza um ar mais real: parece que alguém está observando. Eu também consigo criar uma dinâmica maior quando quero ter um conflito. A câmera vira, fica mais veloz em alguns momentos, fica mais calma em outros. Num ambiente em que várias pessoas estão falando ao mesmo tempo, eu acho que ela cria uma força que ajuda bastante a narrativa desse filme.

 Bruno: Eu não considerei muito o filme como tendo um toque documental pela sua mudança de tom. O filme começa como um debate, mas termina como uma “viagem”, indo e voltando no tempo, mostrando elementos que depois descobrimos que não aconteceram…

 Marcelo: É uma ficção, não um documentário, mas acho que a câmera na mão te aproxima da cena. Pra mim, parece às vezes que é você assistindo. A câmera cria essa sensação de proximidade com a história.

 Bruno: E por que você decidiu modificar totalmente a atmosfera do filme a partir da segunda metade?

 Marcelo: Tem a ver com o efeito da droga. Com ela, no começo, você está de um jeito, no meio, você está de outro… Aí você vai mudando. A narrativa tende a se comportar dessa maneira também.

 Bruno: Você abordou no workshop um caso que aconteceu no set de filmagens, a respeito de uma invasão policial. Há uma cena assim em Quarta B: são trechos reais ou encenações baseadas nos fatos que você presenciou?

 Marcelo: Aquilo foi real. Eles invadiram o set, falando: “Ah, é o filme da maconha, o filme da maconha…”. Acabaram querendo saber o que tinha de maconha ali, invadiram o set, foram até agressivos em algum momento, recolheram algumas fitas, câmeras, a gente teve que ir até a delegacia… UM DAT (Digital Audio Tape) ficou com eles, porque eles falaram algumas besteiras… Eles não devolveram, então tive que dublar algumas cenas. Basicamente, foi isso.

 Bruno: Como se deu o uso de referências no filme? Você citou vários cineastas que serviram de inspiração durante o workshop. Eu notei muitos elementos parecidos com o 12 Homens e Uma Sentença: a tempestade, o voto com pedaços de papel, o personagem que quer terminar tudo e ir embora… Como foi esse processo?

 Marcelo: A referência do 12 Homens e Uma Sentença” foi muito grande. Vi bastante esse filme, porque tinha tudo a ver: os dois filmes se passam dentro de uma sala, tinha aquele cara que quer acabar logo, então foi bem inspirado nesse filme mesmo. Vi muitos filmes do Lars Von Trier, como os Idiotas, do Thomas Vinterberg, como Festa de Família, pela linguagem de câmera na mão…

A maneira de inserir essas referências no filme foi natural. Primeiro eu escrevi o roteiro, depois eu comecei a procurar referências que eu gostava e via o que era interessante dentro do meu projeto. Também busquei aprender com esses caras (os cineastas).

 Bruno: Qual é a importância da crítica cinematográfica para você e para a sua obra?

Marcelo: A crítica é bem-vinda, porque a gente tem que melhorar, a gente tem que ouvir o outro lado. Ela não precisa ser boa, mas precisa ser bem fundamentada. Eu desprezo a crítica que só serve pra detonar sem justificativas. Os críticos que fazem isto parecem ser pessoas mal-amadas.

 Bruno: Fale um pouco dos seus cineastas preferidos.

Marcelos: Tem um monte. Dos brasileiros, o Fernando Meirelles é o pai. Acho o cara um gênio, como pessoa é um cara incrível. Eu o admiro muito. Dos internacionais, gosto do David Cronenberg, pelo lance visceral dele, do David Lynch pelo lado lúdico. Do Lars Von Trier, pela direção de atores e por mexer com o espectador. Você não sai normal de um de seus filmes normal. Do Woody Allen, por trabalhar muito bem o texto, as partes psicológicas, as neuras. Stanley Kubrick, pra mim, está além de todo mundo.

 Bruno: No workshop, você revelou ainda não estar pronto pra fazer filmes, mesmo já tendo alguns longas-metragens no currículo. Por que?

 Marcelo: A gente nunca tá pronto, mas a gente sempre tem que achar que a gente tá, senão a gente não faz. Eu canso de ouvir pessoas falarem isso: não tô pronto, não tô pronto. A gente só fica pronto a partir do momento em que a gente fez o filme.

 Bruno: Um dia, você acha que vai estar pronto para dirigir?

Marcelo: Acho que eu nunca vou estar pronto, mas sempre vou estar fazendo.

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