Meia-Noite em Paris (Dir: Woody Allen)

Crédito: Bastidores

A Torre Eiffel. A Catedral de Notre-Dame. O Arco do Trinfo. As charmosas ruelas. Enfim, Paris. É com essas imagens que Woody Allen abre o seu Meia-Noite em Paris. Mas engana-se quem pensa que elas estão ali apenas como um mero cartão-postal da cidade. Na verdade, essa rápida sequência resume todo o conflito do filme, que é o confronto do passado com o presente. Isso porque a Paris que vemos no começo do filme não é a cidade-luz, a cidade do amor clássica, que todos nós conhecemos (nem que seja pelo cinema…), e sim, uma Paris sem graça, chuvosa, quase deserta. Será que ela perdeu o encanto na atualidade? Nossos tempos modernos, com tanta poluição, comunicação virtual ao invés de cara a cara, violência, corrupção, terrorismo, inviabilizaram toda e qualquer beleza que ainda havia neste mundo?

Talvez este pensamento seja um tanto dramático, mas é assim que às vezes nós nos sentimos quando acompanhamos o último escândalo ou polêmica. E é assim que se sente o personagem principal da história, o roteirista Gil (Owen Wilson, que cada vez mais está mostrando um ótimo ator). Ele é apaixonado por Paris, mas não a dos dias atuais, e sim a dos anos 20. A Paris em que viviam gênios das artes como Ernest Hemingway, Pablo Picasso e Cole Porter. Gil acredita que, se vivesse nessa época, conseguiria mais inspiração para finalmente escrever um romance. Mas a sua nostalgia não é compartilhada pelos seus companheiros de viagem: sua noiva Inez (Rachel McAdams) e os irritantes e desagradáveis pais dela, John (Kurt Fuller) e Helen (Mimi Kennedy). Sem apoio ou perspectiva, Gil, de uma hora para outra, ganha uma chance que qualquer um mataria para conseguir: a de voltar no tempo e conhecer os seus adorados ídolos da Paris dos anos 20.

Eu até hoje nunca assisti a um filme ruim de Woody Allen (confesso que ainda faltar ver muitos). Os seus diálogos são sempre afiadíssimos e sensacionais, mas acho que é quando ele faz uso de um argumento fantástico ele é especialmente feliz, alcançando resultados magníficos. Foi assim com o sublime A Rosa Púrpura do Cairo, uma ode ao próprio cinema e o quanto ele nos fascina. É o meu filme preferido dele. E com essa fantasia com ares de parábola Allen consegue criar novamente uma história deliciosa.

O motivo principal de Meia-Noite em Paris ser tão agradável de se assistir é o frescor da narrativa, que sempre parece ir em frente, mas a cada passo que dá o espectador não pode fazer outra coisa que não se maravilhar com o que é apresentado, seja uma piada bem pensada (quem mais sabe fazer comédia inteligente hoje em dia como Woody?), um diálogo afiado ou mesmo uma cena lindamente fotografada – a Paris noturna dos anos 20 é tão bela que dói na alma não poder estar lá naquele momento. A trama, primeiramente, quer apenas estabelecer terreno, mostrando principalmente como os dramas e aspirações de Gil contrastam com a futilidade da sua futura esposa e sogros. Mas, assim que o roteirista passa a fazer viagenzinhas ao passado (iniciando sempre à meia-noite, daí o título), temos um turbilhão de novas informações que, ao invés de nos deixar confusos, vai criando um clima de descoberta contagiante. Afinal, quem nunca imaginou como seriam as grandes personalidades do passado?

Como Gil, podemos até ficar estupefatos no início, mas logo vamos nos entregando às ótimas conversas que ele vai travando com Hemingway (Corey Stoll), Fitzgerald (Tom Hiddleston), Picasso (Marcial di Fonzo Bo, que está a cara do Christoph Waltz, de Bastardos Inglórios), Gertrude Stein (a sempre ótima Kathy Bates) e a fictícia Adriana, interpretada com doçura por Marion Cotillard, que está em tudo quanto é filme atualmente. Aos poucos, nos apaixonamos por este mundo tão belo e rico de ideias. A experiência consegue ser ainda mais satisfatória se você está familiarizado com os artistas e as obras em questão. Eu não conhecia muita coisa do que foi mostrado, mas foi nada mais do que magnífica a citação de O Anjo Exterminador, do Buñuel. Se, Woody Allen, quando só escrevia sobre suas neuroses já era excepcional, quando ele coloca na mistura recriações espirituosas de grandes nomes do passado só podia dar coisa boa. E deu mesmo!

É através da relação entre esse mundo mágico e inatingível e o cenário desalentador do presente que Woody consegue traçar um dos seus argumentos mais refinados, sem ser, no entanto, complicado. Ao contrário, ele até mesmo abusa do didatismo nos minutos finais, praticamente jogando todas as suas convicções na cara de um espectador menos capcioso. Didático ou não, o meio termo encontrado por Allen mostra como o saudosismo é um tema mais complicado do que parece. O passado nunca poderá ser tão safistatório; o presente nunca terá o charme de outrora. E, mesmo assim, é o que temos, e é preciso conviver com isso. Desse modo, Allen junta, com um senso de unidade perfeito e aparentemente sem esforço algum, realidade e fantasia num só exercício cinematográfico, algo que só um verdadeiro Mestre poderia conseguir.

Meia-Noite em Paris é certamente uma das “fatias da vida” a que Hitchcock se referia a respeito da obra de outros diretores. Não tem como terminar um filme de Woody Allen e não pensar um pouco que seja sobre a nossa vida, as nossas escolhas, o nosso caminho. E com este filme não é diferente. Allen é tão bom que consegue sempre transmitir algo sem ser carrancudo. Seus filmes tem muito bom humor, leveza, espirituosidade sem perder de vista a profundidade.

FICHA TÉCNICA
 
Título original: Midnight in Paris
Ano de lançamento: 2011
Direção: Woody Allen
Produção: Letty Aronson, Jaume Roures, Stephen Tenembaum
Roteiro: Woody Allen
Duração: 100 minutos
Elenco: Owen Wilson (Gil), Rachel McAdams (Inez), Marion Cotillard (Adriana), Kurt Fuller (John), Mimi Kennedy (Helen)
 
Nota: 9.0

3 Responses to Meia-Noite em Paris (Dir: Woody Allen)

  1. É com grande satisfação que digo que a-do-rei o último filme do meu querido Woody. Após a decepção com Você vai conhecer o homem…, o velhinho prova que ainda está com tudo! Sou fã de Woody desde os 12 anos quando assisti Hannah e suas irmãs no cinema, levada por meu pai. Não foi o primeiro dele que assisti (Tudo o que você sempre quis saber… e O dorminhoco, antecederam), mas esse foi a pedra fundamental.
    Do início ao fim, o filme é uma delícia! As referências então, fizeram a minha alegria. O elenco, como sempre está uma beleza, com destaque para Marion e Owen. Aliás, que bom que Wilson se encaixou e se deu tão bem com Woody. Gosto dele (mais como roteirista), mas tem se metido em muitas produções desastrosas ultimamente.
    Já estou ansiosa para assistir o próximo, ou melhor, os próximos. Allen ainda tem muita vida pela frente e muitas maravilhas para nos ofertar. Ah claro! Parabéns pelo texto Bruno. X-cellent as always!

  2. […] de atores e por mexer com o espectador. Você não sai normal de um de seus filmes normal. Do Woody Allen, por trabalhar muito bem o texto, as partes psicológicas, as neuras. Stanley Kubrick, pra mim, […]

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