Projeto Hitchcock: Valsas de Viena (1934)

“Eu não entendo o porquê de termos que experimentar com filme. Acho que tudo deveria ser feito no papel. Um músico, um compositor tem que fazer isso. Ele escreve um monte de pontos e uma música linda é tocada. E eu acho que deveriam ensinar os estudantes a visualizar. É a única coisa que falta. A única coisa que o estudante tem que aprender é que existe um retângulo – um retângulo branco em um cinema – e que ele precisa ser preenchido” Alfred Hitchcock

Crédito: Torrent Butler

Valsas de Viena é um dos filmes mais injustiçados da filmografia de Hitchcock. O próprio Mestre o considerava um dos piores de sua carreira, e o filme, atualmente, está praticamente esquecido pelo público. Ele está longe de ser uma obra-prima, mas é um bastante leve e divertido. Só não espere um típico suspense de Hitchcock, porque Valsas de Viena é totalmente o contrário: um musical.

Não é um musical no sentido clássico do termo, no qual os personagens começam a cantar repentinamente, em qualquer situação. Isso, na época, seria impossível, pois todo o som era gravado no próprio estúdio, e o esforço teria que ser hercúleo para gravar trilha sonora e voz de uma só vez de maneira harmoniosa. Além do mais, ainda havia a apreensão por parte dos estúdios que os espectadores não aceitariam ouvir uma música sem nenhuma fonte visível. Valsas de Viena tem um pano de fundo musical, sendo esta a justificativa para as músicas serem interpretadas.

O material de divulgação de O Homem Errado informava que este era a primeira produção de Hitchcock baseada numa história verdadeira. Mas, pensando bem, esse título deveria ser dado à Valsas de Viena, já que ela conta a história de como o compositor Johann Strauss (Esmond Knight) compôs uma das mais famosas valsas do mundo: o Delúbio Azul. Ao mesmo tempo em que cria a sua obra-prima, o jovem tem que lidar com os resmungos de sua noiva, Rasi (Jessie Matthews), que quer ver Strauss trabalhando na padaria de sua família, e com a indiferença do pai (Edmund Glenn, outro colaborador assíduo de Hitchcock – fez The Skin Game, Correspondente Estrangeiro e O Terceiro Tiro com ele), também compositor. Deve-se descontar todas as liberdades criativas do filme, como o fato de Rasi nunca ter existido na vida real, e do senhor Strauss já ter morrido quando seu filho compôs o Delúbio Azul, mas mesmo assim trata-se de um acontecimento verídico.

A história pode ser bobinha como a de The Pleasure Garden, mas não é tão maçante quanto esta última. O motivo é que os personagens são bem mais trabalhados neste filme, e por isso, nos identificamos e nos apegamos a eles. Strauss, no começo do longa, é o que chamaríamos hoje de loser – está sempre à sombra do pai, o grande compositor e maestro Strauss. Este é o regente da orquestra da Viena, na qual o seu filho toca numa classe pouco valorizada. Mesmo sem inspiração ou meios de mudar de vida, o jovem Strauss ainda tem esperança de, um dia, alcançar o estrelato e se tornar um grande nome da música. Por outro lado, Rasi, a sua noiva, quer apenas viver ao lado do seu amor, mas, para isso, precisa que ele assuma o negócio da família, uma respeitável confeitaria, ramo que Strauss não leva o melhor jeito.

Temos também excelentes coadjuvantes, como o Strauss pai, que é brilhante em seu trabalho, mas que também tem medo de ser ultrapassado pelos mais jovens; e a Condessa Helga Von Stahl (Fay Compton), que ajuda e financia Strauss com as suas composições para que ele seja bem-sucedido, uma empreitada na qual ela não tem nenhum interesse próprio. Todos esses personagens tem a sua personalidade, os seus defeitos e as suas qualidades, o que torna o filme mais agradável de se ver. Pra variar, temos um musical em que as pessoas não são clichês ambulantes, mas sim simples seres humanos. Ajuda também o fato dos seus intérpretes serem muito competentes. Knight, Matthews e Compton estão todos muito bem em seus papeis, mas é Edmung Glenn o que mais chama a atenção. O seu personagem é desprezível, mas o ator consegue dar todo um charme não convencional para ele, além de acrescentar um toque de fragilidade a uma figura tão imponente. Tal construção não deixa de ser surpreendente, já que em musicais geralmente os personagens não tem qualquer tipo de construção dramática.

O filme também pode ser visto como um conflito de gerações, do velho estático contra o novo dinâmico. Hitch consegue transmitir muito bem essa ideia visualmente, ao mostrar o concerto em que o jovem Strauss toca o Delúbio pela primeira vez cheio de gente, para pouco depois filmar apenas o seu pai vagando pelo local, já vazio. O típico humor hitchcockiano também está presente, principalmente na figura do Príncipe Gustav (Frank Vosper), marido da Condessa, e na cena em que Strauss está compondo a sua famosa valsa. O peculiar é que ele o faz na padaria da sua noiva, observando o ritmo que os funcionários batem a massa e empilham os pães. O elemento-surpresa faz desta cena um das melhores do filme. Tenho certeza que ninguém esperava que uma das melodias mais conhecidas no mundo inteiro tivesse sido criada pela visão de pães, roscas e bolos sendo preparados em uma confeitaria… Obviamente, essa cena é ficcional.

É uma pena uma história tão deliciosa ser prejudicada por um trabalho técnico tão desleixado. Valsas de Viena foi o último filme que Hitchcock dirigiu antes de O Homem que Sabia Demais, que representaria um salto técnico e estético na sua carreira. Mas aqui essa evolução ainda está longe de ser vista, a começar pela sequência inicial, a de um incêndio sobre o qual só vemos uma fumacinha. A edição, com cortes bruscos e sem sentido, também não ajuda.

A boa notícia é que os problemas de montagem estão concentrados na abertura. A má é que outros deslizes indesculpáveis vão surgindo ao longo da produção, como falhas do som, que ora fica muito baixo, ora some completamente. Deve-se lembrar que o som ainda era uma tecnologia nova para a época, tendo sido criado apenas sete anos antes das filmagens desta obra, mas mesmo assim há filmes mais antigos que fazem melhor uso do som. Aqui, existem cenas muito estranhas, em que o som ambiente some completamente quando um personagem está falando ou quando uma porta se fecha. Neste caso, deveríamos ouvir o som abafado, pelo menos.

Há até uma ou outra cena em que até a imagem parece desleixada. Por exemplo, quando Rasi caminha até a câmera depois de falar com o senhor Strauss, há um corte muito grosseiro, já que do nada as pessoas que estão atrás dela somem! Sem contar no concerto final, em que Hitch usa uma câmera de grande ângulo para mostrar toda a orquestra, mas acaba por distorcer a figura dos músicos no processo. Esse tipo de erro técnico é grave, porque a plateia para de prestar atenção no filme para pensar “Ei! Por que de repente o filme parece tão mal feito? Não acredito que eles deixaram essa falha passar!”. E, assim, toda a magia e a ilusão do cinema se perdem.

Valsas de Viena, apesar do seu quase amadorismo técnico, ainda assim consegue entreter com sua história e personagens cativantes. Não é dos melhores de Hitchcock, mas nem de longe é a bomba que todos falam. Na verdade, a obra é um bom passatempo. Nada mais que isso. Nada menos que isso.

FICHA TÉCNICA
 
Título original: Waltzes from Vienna
Ano de lançamento: 1934
Direção: Alfred Hitchcock
Produção: Thomas Charles Arnold
Roteiro: Guy Bolton e Alma Reville, baseado na peça de Guy Bolton e Hainz Reichert
Duração: 76 minutos
Elenco: Esmond Knight (Johann Strauss, o Jovem), Jessie Matthews (Rasi), Edmund Glenn (Johann Strauss, o Velho), Fay Compton (Condessa Von Stahl)
 
Nota: 6.5

4 Responses to Projeto Hitchcock: Valsas de Viena (1934)

  1. Estou protelando para assistir essa Valsa! Vi os primeiros 10 minutos e achei chato, mas vou fazer uma forcinha após o seu texto!

  2. Luiz Nazario disse:

    Caro, a famosa valsa de Strauss é ‘O Danúbio Azul’, ‘O Delúbio Azul’, vulgo Soares, é aquele da Valsa do Mensalão. Abraço!

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